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Agroindústria

Usinas voltam a investir na lavoura

Com melhoria das margens e menor endividamento, setor deverá ampliar os trabalhos de renovação dos canaviais, com investimentos de R$ 7,0 bilhões

Colheita mecânica de cana - foto Tadeu Fessel-Unica

Com melhoria das margens e menor endividamento, setor deverá ampliar os trabalhos de renovação dos canaviais, com investimentos de R$ 7,0 bilhões

Lauro Veiga Filho*

Depois de reduzir o replantio e manutenção dos canaviais nas últimas safras, investindo em torno de R$ 5,0 bilhões por ciclo, metade do valor considerado ideal, as usinas ensaiam neste ano retomar com maior força os investimentos na lavoura. Na expectativa do diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antônio de Pádua Rodrigues, a área de canaviais sob reforma deverá experimentar um incremento em torno de 30% na safra 2017/2018, superando a marca de 1 milhão de hectares. Em grandes números, o replantio e manutenção da lavoura demandará das usinas um investimento pouco acima de R$ 7,0 bilhões, aproximando-se dos níveis considerados ideais para sustentar a estabilidade dos canaviais e preservar a sua produtividade.

“O setor teria que investir em torno de R$ 10,0 bilhões para fazer a reforma de aproximadamente 1,5 milhão de hectares por ciclo e ter canaviais bem equilibrados, que permitam cinco colheitas sem que a produtividade média sofra impactos mais severos”, acrescenta Pádua. A melhora nos preços do açúcar e do etanol contribuiu para construir um novo equilíbrio econômico-financeiro para as indústrias do setor, o que explica a recuperação relativa agora em curso.

O preço médio do etanol voltou a ser remunerador, as cotações do açúcar voltaram a subir, diante do deficit na oferta global, e a queda do dólar contribuiu para estancar o endividamento das indústrias, na avaliação de Pádua, estimulando as usinas a recuperar as áreas de lavoura, o que implica, além do investimento no campo em si, a compra de tratores, implementos e outras máquinas. Mantida a tendência e um ambiente menos hostil aos negócios do setor, Pádua estima que em três ou quatro safras será possível colher pelo menos 60 milhões de toneladas de cana a mais na mesma área plantada atualmente, próxima a 10,0 milhões de hectares na Região Centro-Sul.

Para comparação, isso significaria ampliar a colheita para qualquer coisa próxima a 660 milhões de toneladas naquela Região, num avanço de 10% frente a quase 600 milhões de toneladas esperadas pela Unica para a safra 2016/2017, encerrada oficialmente no dia 31 de março deste ano. Ainda à espera de dados finais para o ciclo recém-concluído, Pádua estimava uma produção total, incluindo o Norte e Nordeste, de aproximadamente 650 milhões de toneladas de cana, cerca de 2% menor do que as 666,8 milhões colhidas em 2015/2016 em todo o País.

“A produção deve ter retornado aos níveis de 2013/2014”, diz Pádua. Naquela safra, as usinas processaram 652,96 milhões de toneladas, segundo dados da Unica. As estimativas antecipadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam uma produção de cana de 657,2 milhões de toneladas no ciclo 2016/2017, projetando uma colheita de 647,6 milhões de toneladas para a safra 2017/2018, num recuo de 1,5%.

A produção total de etanol, ainda de acordo com o diretor da Unica, deve atingir 27,8 bilhões de litros, embutindo retração em torno de 8% na comparação com os 30,2 bilhões de litros produzidos na safra anterior, num recorde na série histórica da entidade. “A safra 2016/2017 foi mais açucareira”, anota ele. Nas contas de Bruno Cestaro, gerente para a área de trading do grupo Delta Energia, em torno de 46% da cana foram destinados à produção de açúcar diante de 40% no ciclo 2015/2016.

Sua projeção sugere que 47% da cana a ser colhida no ciclo 2017/2018 deverão ter como destino a produção de açúcar, diante dos preços mais atraentes do produto no mercado internacional. Segundo análise do BTG Pactual, nas safras 2015/2016 e 2016/2017, que se encerra em setembro no Hemisfério Norte, são esperados deficits de 7,565 milhões e de 6,489 milhões de toneladas, correspondendo a 3,7% do consumo global de açúcar, o que deverá sustentar os preços médios por libra peso ao redor de 20 centavos de dólar, em torno de 51,5% mais elevados do que os valores médios observados em 2014/2015.

Diante do aumento no consumo da gasolina C e da redução nas vendas de etanol hidratado, prossegue Cestaro, as usinas vêm alterando o mix de produção, abrindo maior espaço para o anidro. A participação do hidratado na produção total de etanol, diz ele, recuou de 62% na safra 2015/2016 para 59% na seguinte e tende a cair até 55% em 2017/2018, com a fatia do anidro avançando de 38% para 41% e daí até 45%.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as vendas da gasolina C, que recebe o anidro em sua composição, aumentaram 4,6% no ano passado, evoluindo de 41,1 bilhões para 43,0 bilhões de litros, enquanto o consumo de hidratado encolheu 18,3%, de pouco menos do que 17,9 bilhões para quase 14,6 bilhões de litros. No primeiro bimestre deste ano, a tendência ainda se mantinha, com alta de 7,1% nas vendas da gasolina C, para 7,27 bilhões de litros, e baixa de 25,7% para o hidratado, saindo de 2,35 bilhões para 1,75 bilhão de litros no acumulado entre janeiro e fevereiro de 2016 e deste ano.

Sinais ainda dúbios para a indústria

A indústria de etanol, de qualquer forma, ainda convive com sinais dúbios, embora o cenário seja mais favorável do que nas safras anteriores. O alinhamento dos preços da gasolina ao mercado internacional, como parte da novíssima política de preços anunciada pela Petrobras, lembra Antônio de Pádua Rodrigues, da Unica, sempre foi uma demanda do setor. Mas a volta da cobrança do Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins)sobre o etanol, com o fim do crédito presumido de R$ 0,12 por litro, o que zerava a contribuição, afetou negativamente a competitividade do produto.

Os esforços da Unica, insiste Pádua, continuarão direcionados para o reconhecimento das externalidades positivas do etanol frente à gasolina, o que significaria a adoção de um tratamento tributário diferenciado. Para cumprir os compromissos de redução de emissões assumidos pelo País na 21ª Cúpula do Clima, realizada em dezembro de 2015 em Paris, relembra Pádua, será preciso elevar a produção de etanol para 50 bilhões de litros até 2030, o que exigirá políticas públicas que criem as condições para que aquele aumento aconteça. A cada mil litros de gasolina consumidos, continua ele, são emitidas três toneladas de CO2, o que significa um volume de emissões cinco vezes mais elevado do que os 600 quilos de CO2gerados na produção e consumo de idêntico volume de etanol de cana.

A conjuntura mais favorável começa a se refletir sobre os balanços, vislumbrando-se crescimento mais expressivo para as receitas e para os ganhos antes de juros, impostos, depreciação e amortizações (Ebitda), com algum avanço na geração livre de caixa e melhoria nos indicadores de endividamento. Na safra 2016/2017, avalia Guilherme Pessini, gerente sênior de agronegócios do Itaú BBA, as usinas deverão registrar já alguma redução da dívida líquida em valores absolutos, considerando uma amostragem de 57 grupos usineiros da região Centro-Sul, que moeram 411 milhões de toneladas de cana na safra 2015/2016, algo como 67% da moagem regional.

A dívida líquida da amostra, que não inclui grupos em recuperação judicial, havia saltando 26,3% na passagem das safras 2013/2014 para 2014/2015, subindo de R$ 41,033 bilhões para R$ 51,818 bilhões, e cresceu mais 7,5% na safra finalizada em março do ano passado, atingindo R$ 55,707 bilhões. Esse valor, na projeção de Pessini, tende a ser reduzido em quase R$ 5,0 bilhões no ciclo 2016/2017, para algo em torno de R$ 51,0 bilhões. A relação entre dívida e Ebitda, que já esteve levemente acima de quatro vezes em 2014/2015, deve cair pela metade, para duas vezes, o que significa um nível igualmente inferior aos 2,7 esperados para a safra 2016/2017.

Mesmo considerando um volume menor de cana a ser moída, a dívida por tonelada, acrescenta Pessini, deve se manter virtualmente estável, por volta de R$ 127 a R$ 128 nas safras 2015/2016 e 2016/2017, devendo, no entanto, cair 18% na safra recém-iniciada, para R$ 108. “A alta dos preços do açúcar e do etanol no ano passado permitiu uma melhor geração de caixa e a queda do dólar, que estava em R$ 3,56 no encerramento da safra 2015/2016 e fechou o ciclo seguinte em R$ 3,12, deverão permitir uma redução relevante do endividamento, numa queda da ordem de 10%”, estima Pessini.

O movimento de desalavancagem deverá ser favorecido ainda pela redução na taxa básica de juros, o que tende a produzir “um efeito importante sobre as despesas financeiras”. No auge da crise de endividamento, em 2015/2016, o resultado financeiro líquido das usinas analisadas pelo banco correspondeu a R$ 15,90 por tonelada de cana processada, num salto de 62% em duas safras. A estimativa do banco para 2017/2018 leva em consideração uma redução de 45% desde lá, para R$ 8,70 por tonelada.

Se o cenário mais favorável se confirmar, aposta Luis Felipe Trindade, diretor de Corporate Finance da Consultoria Czarnikow, pode-se esperar, numa primeira fase, a continuidade do processo de desalavancagem, seguida por investimentos em eficiência de custos e, na sequência, diversificação das operações dentro do parque industrial, seja com instalação de fábricas de açúcar seja com a implantação de cogeração. “O passo seguinte envolveria a retomada do processo de consolidação para só então podermos vislumbrar investimentos em expansão de capacidade e em projetos greenfield. Para isso, no entanto, os preços precisam se manter elevados por um determinado período”, comenta Trindade.

Aumenta uso da capacidade instalada

O fechamento de 70 usinas, na contabilidade do BTG Pacttual, ou de 75, nas contas de Ricardo Pinto, da RPA Consultoria, elevou os níveis de ocupação das usinas para 93,8% na estimativa do banco para o ciclo 2017/2018, depois de rodar numa faixa entre 73% e 74% entre 2010 e 2012. Esse fator, considera o BTG Pactual, deverá servir como um freio a um maior crescimento da oferta de açúcar, o que deve manter os preços aquecidos, influenciando também o mercado de etanol, já que não há previsão de investimentos em expansão no setor.

O cenário atual, a despeito dos números mais lisonjeiros, detalha o sócio- fundador da RPA, ainda não estimula decisões do tipo. Num balanço da consultoria, entre 444 unidades de produção acompanhadas por Pinto e sua equipe, 67 encontram-se em recuperação judicial, das quais 43 mantiveram sua operação, e 14 tiveram falência decretada, restando 369 em pleno funcionamento. O consultor espera que mais 28 unidades recorram à recuperação judicial até 2020.

quadro cana
*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de maio da Revista Safra, a partir da página 24.

Foto: Tadeu Fessel/Unica

 

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