Tempo e desenvolvimento

Marcelo Barreto da Silva é professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), secretário de Agricultura do município de São Mateus (ES) e coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável 

Gosto muito de matemática. Ela permite ver as coisas de forma precisa e imparcial. Acho interessante projetar números, mostrar tendências, ver em números aquilo que já conhecia por experiência. Uma boa combinação é tempo e número. O tempo é um fator limitante, por isto mesmo desafiador. O produtor sabe que uma vez feito o semeio da boa semente em uma terra fértil, havendo água, temperatura e nutrientes, a cultura vai seguir seu caminho e produzir os frutos no momento esperado. O desenvolvimento biológico, havendo condições ambientes adequadas, é automático, previsível e, por que não dizer, matemático.

Tive a oportunidade de participar de um dia de campo em uma pequena propriedade. O organizador, um jovem extencionista, queria mostrar aos vizinhos do produtor por ele atendido o resultado de um trabalho simples mais eficiente. O evento ocorreu na casa do agricultor, que há oito anos deixou a cidade e ingressou no movimento de pequenos agricultores. Adquiriu uma propriedade de 20 hectares, conseguiu apoio para construir sua casa e iniciou a luta para produzir alimentos e comercializa-los principalmente via o Plano Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Foram necessários oito anos de trabalho, para que esta família, o casal com dois filhos, saísse de uma condição de subsistência e conquistasse uma boa qualidade de vida. Casa com piscina, área de lazer e carro novo na garagem. Projeto de expansão do plantio, melhoria na infraestrutura de produção e aumento da qualidade de seus produtos. O filho mais velho formou em educação física e a filha em direito. Uma história de sucesso obtido com trabalho, tempo e aprendizados. Esta experiência reforça alguns princípios básicos sobre desenvolvimento rural, ou seja, a mudança de um estado de menor para maior estabilidade social, financeira, econômica e ambiental.

A primeira lição é que o segredo do sucesso não foi simplesmente a tecnologia, e sim a disposição e determinação do produtor em fazer uso correto das informações a ele disponibilizadas. Ou seja, o produtor conduziu a propriedade sob a orientação do agrônomo quanto ao uso da terra, dos adubos, da irrigação, das mudas e dos demais componentes de seu sistema produtivo. A tecnologia utilizada por esta família está acessível de todos os demais produtores, independente de seu tamanho, formação cultural e experiência no ramo.

O tempo é outro fator determinante. Em um ambiente em que tudo ocorre de forma instantânea, é fácil nos esquecermos que o sucesso não ocorre normalmente da noite para o dia. Na trajetória do produtor em questão foram oito anos de árduo trabalho envolvendo toda a família. Nesta caminhada houve altos e baixos, ganhos e perdas, mas o que esteve presente ao longo do tempo foi a constância em perseguir o que era correto. Foram anos seguindo orientações que muitas vezes não mostraram resultado imediato como correção do solo, prevenção de doenças e pragas, assim como a preservação de nascentes.

Outra constatação no evento é que dentre os presentes havia vários produtores mais velhos e experientes que seu hospedeiro. Apesar dos anos à frente, não haviam alcançado o mesmo nível de desenvolvimento que seu vizinho. Ou seja, o passar do tempo por si só não traz desenvolvimento. Pode-se viver uma vida inteira e continuar estagnado. O diferencial aqui é que o desenvolvimento pessoal não é automático como o observado em uma planta. Depende de atitudes e decisões que são tomadas ao longo da vida, mais do que de fatores externos ou ambientais. Ou seja, é preciso mudar interiormente primeiro para que a mudança ocorra no ambiente externo, se quisermos desenvolver. E isto se aplica a uma pessoa, uma família, uma empresa, uma cidade ou nação.

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