Saulo Coelho/Embrapa

Tem início maior projeto de pesquisa voltado à aquicultura

O projeto é o terceiro maior já financiado pelo BNDES Funtec – linha de crédito não reembolsável a projetos de pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e inovação. Serão R$ 45 milhões financiados pelo banco, R$ 6 milhões da Embrapa e R$ 6 milhões da Seap, totalizando R$ 57 milhões

Os dados são de 2014 e constam de um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), mostrando que o consumo mundial na aquicultura é da ordem de 20 quilos per capita. No comparativo, o de carne bovina atingiu menos da metade, 6,54 quilos. O cenário mostra que o mercado da pesca e da aquicultura é promissor. E foi pensando nisso que o Brasil iniciou o maior projeto de pesquisa em aquicultura já realizado no País. O BRS Aqua envolve 22 centros de pesquisa, 50 parceiros públicos e 11 empresas privadas, números que ainda devem aumentar ao longo de sua duração.

Trata-se de um marco em investimentos no tema, fruto da parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a atual Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca, ligada à Presidência da República, (Seap).

“A demanda mundial por pescados cresce de forma acelerada em decorrência do aumento populacional e da busca por alimentos mais saudáveis. No Brasil isso também ocorre. Em 2003, o consumo era inferior a 6,5 quilos de pescado por pessoa ao ano, hoje esse valor subiu para 9 quilos per capita. Se a população ingerisse a quantidade recomendada pela OMS, que é de 12 quilos, isso já representaria um impacto no consumo de 5.722 mil toneladas”, calcula um dos coordenadores do estudo do BNDES Jaldir Lima.

O projeto é o terceiro maior já financiado pelo BNDES Funtec – linha de crédito não reembolsável a projetos de pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e inovação. Serão R$ 45 milhões financiados pelo banco estatal, R$ 6 milhões da Embrapa e R$ 6 milhões da Seap, totalizando R$ 57 milhões. A meta, ao fim dos quatro anos de duração, é estabelecer a infraestrutura e a pesquisa científica necessárias para atender demandas do mercado de aquicultura.

“Esse projeto é de grande importância não só para o nosso centro de pesquisa, mas também para a Embrapa inteira e para o Brasil. É a comprovação de que a aquicultura chegou para ficar e tornou-se uma área estratégica no País”, comenta o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO), Eric Arthur Bastos Routledge. A unidade coordena o BRS Aqua.

Espécies – No Brasil, um dos maiores desafios em aquicultura está na falta de pacotes tecnológicos para a criação de importantes espécies aquícolas. Por isso, o projeto focará na pesquisa do tambaqui (Colossoma macropomum), tilápia (Oreochromis niloticus), camarão (Litopenaeus vannamei) e bijupirá (Rachycentron canadum), que apresentam grande demanda de mercado ou possuem alto potencial de produtividade.

“Essas espécies se encontram em diferentes patamares tecnológicos e para cada uma delas haverá uma abordagem diferente”, explica a pesquisadora e coordenadora do projeto, Lícia Maria Lundstedt, da Embrapa Pesca e Aquicultura. Segundo ela, enquanto a tilápia possui um pacote tecnológico mais avançado, as pesquisas com o bijupirá ainda são incipientes no País, embora seja uma espécie nativa do litoral brasileiro e tenha potencial para ser uma opção para o desenvolvimento da piscicultura marinha nacional.

Pesquisa – “Cada uma dessas espécies por si só renderia vários projetos. De qualquer forma, o BRS Aqua vai gerar os mais diversos produtos, entre eles um incremento da infraestrutura para futuras pesquisas em aquicultura na Embrapa”, explica Lícia. A Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE), por exemplo, terá um novo laboratório para pesquisar espécies marinhas. A Embrapa Meio Norte (PI), que já trabalha com camarão, também terá melhorias em suas instalações para pesquisas na área e várias outras unidades da Embrapa receberão um reforço na infraestrutura para incrementar as pesquisas em aquicultura.

Para atender às mais diversas demandas, o BRS Aqua funciona como um grande guarda-chuva sob o qual há oito projetos componentes (Germoplasma, Nutrição, Sanidade, Manejo e Gestão Ambiental, Tecnologia do Pescado, Economia do Setor Aquícola, Transferência de Tecnologia e Gestão), com pesquisas distribuídas em diversos centros de pesquisa da Embrapa e polos produtivos.

Banco de germoplasma – “Um dos destaques em genética é a geração de informações científicas e tecnológicas que tenham impacto direto na produção de alevinos (filhotes) de tambaqui com melhor qualidade, o que vai refletir em redução da mortalidade e aumento na produção”, explica Lícia, ao acrescentar que o projeto pretende estabelecer uma coleção de germoplasma qualificado de tambaqui na Embrapa Pesca e Aquicultura para futuros investimentos públicos ou privados em melhoramento genético.

Segundo a pesquisadora, atualmente o setor produtivo do tambaqui utiliza germoplasma pouco caracterizado cientificamente e sem melhoramento genético. Para que a produção avance, é necessário que o germoplasma seja geneticamente melhorado quanto às características produtivas, como melhoria nas taxas de crescimento, maior resistência a doenças, adaptação a sistemas intensivos de cultivo, entre outros avanços.

Em sanidade, o projeto pretende mapear os mais importantes desafios sanitários do tambaqui e seus fatores de risco para propor boas práticas de manejo, sistemas de diagnóstico rápido de doenças e desenvolver seus respectivos tratamentos. Um dos principais resultados nessa área será a identificação dos fatores de risco preponderantes relacionados à mortalidade do camarão, causada pela doença da mancha branca, a fim de propor medidas para evitar ou mitigar os efeitos em sua produção no Nordeste.

Causada por um vírus, a doença se manifesta na fase inicial de desenvolvimento do crustáceo, calcificando-o, provocando falta de apetite, letargia e manchas brancas em sua casca. Em seguida, o animal morre e contamina os outros. Com isso, produções inteiras são perdidas antes mesmo de chegarem ao consumidor. Um dos casos mais recentes da doença ocorreu no Ceará em meados de 2017. Em seis meses, 30 mil toneladas de camarão foram perdidas – o equivalente a 60% da produção do período.

Em nutrição, o foco será em tambaqui e tilápia. Serão definidos protocolos alimentares para a produção intensiva do tambaqui, nas fases de larva, engorda e abate, em viveiros e tanques-rede, tendo por base a capacidade de digestão dos ingredientes da ração e as exigências nutricionais do peixe. Além disso, o projeto abordará aspectos relacionados à tecnologia de processamento de rações, uma vez que há diversos parâmetros que precisam ser cuidadosamente monitorados para obtenção de produtos de alta qualidade. Também serão avaliadas nutricionalmente as rações disponíveis no mercado. É justamente esse insumo que impacta em até 82% nos custos de produção, dependendo do sistema adotado. Na prática, o produtor acaba gastando mais do que o necessário para engordar o animal.

Apesar de possuir 12% da água doce mundial e uma costa litorânea com mais de 8,5 mil quilômetros de extensão, a produção brasileira de animais aquáticos é inferior ao seu potencial. As causas desse desempenho são diversas e incluem baixa qualidade das matrizes reprodutoras, poucos estudos sobre a capacidade de suporte de ambientes de cultivo (número máximo de peixes ideal para uma determinada área), limitada assistência técnica, deficiência nas formas de controle e monitoramento das enfermidades de animais aquáticos e utilização incipiente de resíduos para produção de derivados. Também há falta de tratamento e aproveitamento de efluentes de aquicultura e de padronização de indicadores para o licenciamento ambiental nos diferentes ambientes onde a aquicultura é praticada.

“Fizemos um levantamento de informações sobre o setor entre 2012 e 2013, que gerou dois estudos que revelaram todo o potencial na área de aquicultura do Brasil. Isso foi na época do Ministério da Pesca e Aquicultura, que desejava investir no desenvolvimento aquícola”, recorda o chefe do Departamento da Área de Indústria e Serviços do BNDES, Marcos Rossi Martins.

A análise constatou grandes gargalos e oportunidades. A variedade de peixes da Bacia do Rio Amazonas, por exemplo, é um diferencial para o Brasil atingir novos mercados. O clima é outra vantagem a favor do País, cujas condições para o cultivo da tilápia – uma das espécies de peixe mais consumidas no mundo – são excelentes. Outros cultivos, como o de crustáceos e moluscos, também têm potencial de escala no Brasil. No entanto, a indústria de pescados ainda é incipiente no País, tanto na pesca quanto na aquicultura.

Embrapa

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