Tecnologia ajuda produtores a combater desperdícios

Softwares ajudam criadores a planejar a atividade e a utilizar recursos disponíveis com maior eficiência, com ganhos de produtividade e redução de custos

Laura de Paula

Planejamento é uma ferramenta muito valorizada em qualquer negócio de sucesso. Na pecuária de corte não pode ser diferente. Mas, em geral, o pecuarista brasileiro gasta pouco – ou nenhum – tempo pensando suas ações, calculando custos e projetando metas. “Na verdade, nossa cultura é a do ‘faz e depois vê o que acontece’. E temos que fazer justamente o contrário: parar, pensar, observar, analisar e, aí, fazer”, diz Gustavo Rezende, diretor de pesquisa da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios – polo regional de Colina (Apta/Colina).

A boa notícia é que esse clássico modo de pensar vem mudando. Muitos produtores rurais que trabalham com a engorda de gado já aprenderam que podem maximizar o uso dos recursos disponíveis, gerando aumento de produtividade e economia nas despesas. A pecuária de precisão se assemelha à agricultura de precisão – que, entre outras situações, emprega a tecnologia para dosar a quantidade de adubos e de agrotóxicos nas lavouras. Um exemplo desse conceito moderno de pecuária pode ser visto nos confinamentos que utilizam softwares capazes de calcular as exigências nutricionais dos lotes de bois confinados, elaborar formulações de menor custo ou máximo ganho de peso e mensurar o desempenho animal e econômico conforme a dieta alimentar.

“É o confinamento que mede todos os resultados, tem controle de ingestão animal, de cocho. É bem gerido, com números e indicadores”, explica Rodrigo Penna de Siqueira, diretor da Vera Cruz Agropecuária, no município de Goianésia (GO), distante 160 quilômetros da capital Goiânia. O pesquisador Sérgio Raposo de Medeiros, da unidade Gado de Corte da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ressalta que para o confinamento de precisão funcionar bem é necessário ter mão de obra treinada. Na Vera Cruz Agropecuária, parte da remuneração dos funcionários é condicionada ao cumprimento de metas.

Aliás, encontrar pessoal para trabalhar no campo está cada vez mais difícil e caro. Esse é um dos fatores que têm impactado os custos de produção. Resultados preliminares de um levantamento feito, em setembro, pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), mostram que, além da mão de obra, o preço de insumos como soja e milho – que, este ano, já alcançou patamares maiores que os de agora – e a valorização da terra encarecem muito os gastos da pecuária de corte goiana, diminuindo ainda mais a rentabilidade, sem falar na queda da cotação da arroba. Nos confinamentos, a alimentação e o valor pago pelos animais de reposição são os itens mais onerosos.

“Quando o produtor tem conhecimentos de gestão, ele vai se utilizar de ferramentas que minimizam essas elevações”, afirma Christiane de Paula Rossi Carvalho, assessora técnica da Faeg para a área de pecuária. Ela exemplifica que um pecuarista bem informado sabe a cotação do milho, logo, verifica o mercado, compra para estocar em uma época de preços melhores, negocia quantidades maiores por intermédio de associações. “São alternativas como esta que vão fazer com que o produtor tenha melhor renda e não fique desestimulado”, diz. Gustavo Rezende, da Apta-Colina, completa que a única chance de o pecuarista elevar a sua margem de lucro é aumentando a produtividade por meio do emprego correto da tecnologia. “Para aquele que não faz nada, cada dia vai sobrar menos dinheiro para produzir na mesma quantidade.”

Baixa rentabilidade

A pesquisa sobre os custos de produção da pecuária de corte em Goiás foi realizada em Niquelândia, Porangatu, São Miguel do Araguaia, Nova Crixás, Jussara, Goiânia, Catalão, Itarumã, Mineiros, Jataí, Rio Verde e Formosa. Os pecuaristas que participaram do levantamento representam o tipo de produção e o tamanho de propriedade comuns naqueles municípios. Eles responderam informações sobre o custo operacional efetivo (COE), que inclui gastos com mão de obra, insumos, sementes, sais minerais, medicamentos, reparos de benfeitorias e conserto de máquinas; o custo operacional total (COT), que soma o pró-labore do produtor rural e as depreciações; e o custo total (CT), representado pelo custo de oportunidade da terra, ou seja, quanto o pecuarista obteria se vendesse sua propriedade e investisse o dinheiro em outro negócio.

A percepção geral é de que a tecnologia ainda não é muito empregada na atividade e os resultados iniciais do levantamento mostram que o CT sempre fica negativo. Christiane Carvalho, da Faeg, cita o exemplo de Mineiros, no sudoeste do Estado, onde a arroba do boi deveria valer R$ 129 para saldar os custos de produção, porém, estava sendo comercializada à média de R$ 98. “A maioria das propriedades está com rentabilidade muito baixa. Como o produtor não forma seu preço, ele sempre tem a obrigação de reduzir custos”, ressalta. Ela afirma que, se a pesquisa fosse realizada em propriedades que têm maior aporte tecnológico e gestão eficiente, os resultados poderiam ser mais animadores. “Conforme você intensifica a utilização de tecnologia, entra mais dinheiro, mas, ao mesmo tempo, é preciso investir em gestão, mão de obra, o que aumenta muito os custos. Em troca, você tem aumento de produtividade e de escala de produção.”

Rodrigo Siqueira, da Vera Cruz Agropecuária – que dispõe de capacidade estática para confinar 20 mil animais, sendo 20% de terceiros –, avalia que os custos de investimento em tecnologia e gestão “são muito pequenos em relação aos resultados que podem gerar”. Ele assegura que o confinamento de precisão não significa ganho maior de arrobas perante o sistema de engorda tradicional, mas sim gastos menores para alcançar a mesma quantidade de peso. Por exemplo, no primeiro, o boi come 6,5 quilos de ração para ganhar cada quilo, enquanto no segundo modelo, consome 7 quilos. “O confinamento é uma atividade intensiva da pecuária e o volume de dinheiro envolvido é grande. Então, qualquer melhoria de eficiência, de produtividade, de rendimento no confinamento é muito importante. O desperdício custa caro, um erro custa caro, por isso tem que ser o mais medido possível e trabalhado sempre com animais que deem bastante retorno. E gestão, controle, monitoramento é que vão permitir que isso aconteça.”

Quer saber mais sobre o assunto? Leia a íntegra desta matéria na edição de novembro da Revista Safra, a partir da página 36.

Revista Safra

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