Seleção negativa

  Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

Temos o costume de olhar a palavra seleção como algo positivo ou desafiador. Quem não gostaria de ser selecionado para participar da seleção de seu time de futebol, ou para participar da equipe de uma empresa de renome ou para ingressar no curso preferido? Na natureza, foi a palavra escolhida para caracterizar o processo de seleção dos indivíduos mais adaptados, garantindo assim a perpetuação das espécies. No campo, o produtor, seleciona a variedades mais produtivas ou os animais de maior rendimento, criando condições para uma maior rentabilidade.

Como a palavra seleção tem conotação positiva, o adjetivo negativo se faz necessário, pois quero me referir a um tipo de seleção recorrente e que precisa ser revisto. Defino seleção negativa como o processo pelo qual alguns empresários e suas empresas conseguem se destacar no mercado adquirindo fama e fortuna, fazendo uso de práticas ilícitas. Em um processo de seleção, espera-se que o empresário mais inovador, visionário ou com maior capacidade gestora consiga, ao longo do tempo, destacar-se dentre seus concorrentes, fazendo com que o posicionamento de sua empresa no mercado seja merecido e justo.

A seleção positiva é comprometida quando se cria um ambiente favorável à corrupção. Neste contexto, empresários e gestores públicos corruptos juntam-se para criar vantagens competitivas que não estão fundamentadas em critérios eticamente aceitos. As leis de mercado são suplantadas pela lei das vantagens indevidas. Inicia-se então o processo de seleção negativa, pois as práticas que conferem maior competividade são: suborno, desonestidade, protecionismo, sonegação e outras mais.

Exemplifico este efeito comparando duas empresas do ramo de alimentos. Uma, gerida profissionalmente e a outra por alguém inescrupuloso. A primeira retorna em impostos ao governo algo ao redor de R$ 40 mil mensais. Seu gestor é focado na qualidade, busca eficiência dos seus serviços e credibilidade de sua marca. Seu concorrente faz denúncias infundadas aos órgãos de controle, que visitam seu empreendimento com todo o rigor da lei, fazendo-o pagar mais impostos e multas. O gestor inescrupuloso sonega parte dos impostos. Com o recurso desviado, consegue investir mais na apresentação de seu produto, tem condições de subornar fiscais e mantê-los longe de seus negócios. Seu custo operacional é reduzido e seu fluxo de capital é aumentado. Sua eficiência é relativa e sua credibilidade comprada.

O mercado regido pela seleção negativa, ou concorrência desleal, acaba selecionando empresas e empresários que não se sustentam ao longo do tempo. Os piores são selecionados e os melhores inviabilizados. É um custo alto para um mercado que quer se desenvolver. Países desenvolvidos criam ambientes de combate a corrupção. Os processos são auditados e as regras do jogo são melhor definidas e aplicadas.

Fatos recentes sugerem que a seleção negativa esteve presente na formação de alguns grupos do agronegócio brasileiro. Boas empresas não conseguiram ter acesso às melhores condições financeiras para resolver suas insolvências. Os melhores recursos não estavam disponíveis igualmente para todos. É possível inferir que componentes como suborno e a concorrência desleal estiveram presentes na formação destes grupos.

A imagem do Brasil, para alegria dos concorrentes, foi manchada. Mais uma vez fomos punidos por nossas próprias falhas. Entretanto o agro brasileiro é maior que suas mazelas. Lutamos e continuaremos a lutar para mantermos a posição de vanguarda conquistada por muito trabalho e seleção positiva. Com o agro, temos muito que aprender com o Brasil que dá certo e seleciona os seus melhores empreendedores.

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