Preparados para o risco?

Julia Guerra é diretora de Agronegócios da JLT Brasil Seguros 

A adversidade é antiga conhecida de quem trabalha e vive do campo. Para o cultivo das primeiras lavouras foi preciso enfrentar a malária, a falta de energia elétrica, a ausência de estradas, de saneamento básico e de telefonia. O produtor rural viu e viveu a transformação do campo, ao mesmo tempo em que o Brasil também mudava de uma economia pautada na produção da cana-de-açúcar, durante o período colonial, à mecanização da produção e à modernização das atividades.

Ao longo dos anos, muitas dificuldades foram superadas. Os investimentos dos setores privado e público possibilitaram mudanças profundas no modelo agrícola, com a diversificação de culturas e ampliação das fronteiras. Houve a melhoria dos insumos, a mecanização do campo, a implantação de estruturas de armazenagem e centrais de comercialização da produção, a instauração de serviços de assistência técnica e extensão rural, a capacitação e a formação de pessoal técnico e em pesquisa de ponta.

O Brasil, que há 40 anos importava 90% do trigo, 50% do leite e 30% da carne, produz hoje o suficiente para abastecer o mercado interno e ainda se tornou um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. O agronegócio já representa 23% do Produto Interno Bruto (PIB) e é o setor de maior fôlego competitivo da economia brasileira.

O avanço é inegável, mas ainda há entraves que impedem um desenvolvimento ainda maior e melhor. O escoamento da produção é um exemplo dos problemas estruturais enfrentados pela agricultura no Brasil. Nas mais diversas regiões do País, a deficiência na infraestrutura de transportes ainda persiste à medida que as fronteiras agrícolas se expandem. Com um escoamento de produção ineficiente, os prejuízos aumentam e há perda de competitividade frente aos grandes produtores do mundo. Parte dos investimentos realizados em tecnologia, técnicas e preparação da terra para o Brasil ter ganho de produtividade começam a se esvair ao sair da porteira. Uma boa condição de escoamento já compensaria a baixa capacidade de armazenagem, uma vez que a estocagem agrícola não acompanha o aumento da produção na mesma proporção. Investimentos estão sendo realizados para eliminar esse gargalo, mas o risco intrínseco à atividade permanecerá nas mãos do produtor.

Se as estimativas de desempenho da produção brasileira se confirmarem, será fundamental ter condições favoráveis para aumentar a nossa competitividade. O produtor rural tem mostrado que está mais preparado para as adversidades. Além de enfrentar pragas, doenças e variações climáticas cada vez mais comuns, encara também um cenário de instabilidade política, crise econômica e oscilação dos mercados. Aos poucos, tem percebido que, se o risco é iminente, também é passível de ser gerenciado.

Os levantamentos sobre os prêmios de seguro de risco rural refletem esse cenário: em 2016, os prêmios de seguro registraram R$ 3 bilhões com crescimento de 15,2% frente ao ano anterior. As principais modalidades foram cobertura agrícola e penhor rural, que respondem por mais de 80% das apólices emitidas. As indenizações atingiram R$ 1,9 bilhão, com sinistralidade de 66%, acima dos 20% observados em 2015, uma vez que as mudanças climáticas impactaram principalmente as safras de grãos nos primeiros seis meses do ano.

O seguro agrícola é uma importante alternativa para tornar o setor financeiramente estável mesmo com ocorrências de eventos naturais adversos. A alta exposição a riscos financeiros associados ao clima, doenças e preço das commodities permite que o seguro seja contratado pelos produtores e empresas participantes da cadeia agrícola. Com a cobertura o produtor tem a possibilidade de recuperar o capital investido na sua lavoura ou empreendimento ante a perda da produção por conta de uma chuva mais forte ou de uma seca mais prolongada. O prejuízo pode ser evitado ou, no mínimo, reduzido.

É verdade que o Brasil ainda tem uma cobertura muito pequena e abaixo do potencial – apenas 15% da área plantada é coberta – e nem sempre os riscos que surgem são assimilados rapidamente. A indústria agrícola, porém, está em um novo patamar, bem diferente de anos atrás. O produtor rural dispõe hoje de mais acesso ao conhecimento, mais ferramentas e segmentos especializados para apoiá-lo nos desafios do agronegócio.

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