Publicidade
Publicidade

Colunistas

Perceber o invisível

Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), secretário de Agricultura do município de São Mateus (ES) e coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

Marcelo Barreto-corte

Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), secretário de Agricultura do município de São Mateus (ES) e coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

Diariamente usamos o senso comum para observação, análise e tomadas de decisão, mas no âmbito da ciência, ele é no máximo o ponto de partida, afinal, compete aos cientistas transformar hipóteses em fatos concretos. No caso das ciências agrárias é importante ressaltar que seus pressupostos fogem da compreensão de muitos; exemplos: inferência matemática, silenciamento gênico, sorção atômica, porém eles alcançam práticas agrícolas simples como adubação, resistência genética e uso de herbicidas. A assistência técnica leva ao agricultor práticas simples que têm por base uma complexa fundamentação teórica. Daí afirma-se que é difícil para o produtor aceitar como verdade aquilo que ocorre abaixo da superfície do solo, concentrando-se apenas naquilo percebido visualmente na lavoura formada.

Um conceito proposto por Liebig, um químico do início do século 19, é conhecido como a lei do mínimo. Liebig demonstrou que a quantidade de nutrientes absorvida pela planta é limitada pelo elemento, quer seja macro ou micro nutriente, que estiver em menor concentração disponível. Este princípio destaca a importância do equilíbrio de químico no solo. Para conhecer este equilíbrio é necessária a análise da fertilidade do solo. Prática simples que traz benefícios econômicos e ambientais para o produtor. Muitos produtores fazem uso regular destas análises. Por outro lado, não é incomum ver produtores adubando suas lavouras sem o devido respaldo de uma avaliação nutricional do solo. É uma lógica abstrata o fato da planta não absorver nutrientes disponibilizados no solo caso não haja equilíbrio entre todos os demais elementos.

A aplicação de produtos fitossanitários em excesso desequilibra a população de microrganismos que vivem no solo. O mesmo ocorre com a alteração do pH e o uso excessivo de adubos. A maioria destes microrganismos é benéfica. Auxilia na liberação de nutrientes para as plantas, decompõe a matéria orgânica e ajuda na estruturação física do solo. Os microrganismos benéficos auxiliam no controle dos patógenos presentes no solo, como nematóides e fungos, que causam doenças de difícil controle. Hoje, por exemplo, o controle de nematóides é um desafio para a produção de soja, milho e batata. Produtos biológicos têm ganhando mercado no controle destes patógenos, mas sua eficácia depende do equilíbrio microbiológico do solo. A consolidação do controle biológico de patógenos do solo requer mudança de hábitos e práticas comuns do agricultor.

Fazer barragem e represar água é a demanda dos produtores em tempos de escassez de chuva. A importância do acúmulo da água e sua disponibilidade nos reservatórios são percebidas pelo produtor. O mesmo não se pode dizer na compreensão do ciclo da água na natureza, o que garante o abastecimento permanente dos reservatórios e rios. Partido do conhecimento do ciclo da água, que inicia com a as chuvas, parte da água escorre na superfície indo diretamente para os rios e córregos. O maior volume deveria se infiltrar no solo atingindo diferentes profundidades, fazendo com que seu retorno à superfície, por meio das nascentes, ocorra lentamente garantindo a perenidade dos reservatórios e rios. O maior reservatório de água doce está no subsolo, representando 30% do total, enquanto lagos e rio participam com menos de 1% deste total. Ou seja, para preservar as águas dos rios, represas e lagos, é necessário garantir que as águas das chuvas infiltrem e sejam armazenadas no solo. Para tanto, técnicas de proteção do solo e das nascentes devem ser priorizadas. A proteção de nascentes, plantio em nível, formação de áreas de retenção de água, construção de caixas secas, preservação da cobertura do solo, proteção das áreas de recarga de água do solo são fundamentais.

O desafio posto é ir além do visível, da lógica pragmática e entender os processos da natureza em seu ciclo mais longo. É saber que sustentabilidade deve influenciar as práticas cotidianas para que seja uma realidade e não um modismo. Mudar é preciso, e pensar, a longo prazo, é essencial para atender aos desafios de alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050.

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando necessariamente a opinião editorial do Portal Revista Safra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>