O agro pode muito mais!

  Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

Durante a maior crise social e econômica que o País atravessa, nosso setor é responsável por 70% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Crescimento decorrente do trabalho sério, da inserção em mercados exigentes, sustentado por muito estudo, ciência e tecnologia. Dele participam produtores, técnicos, comerciantes, pesquisadores, exportadores, empresários e outros profissionais que se envolvem desde o plantio até o consumidor final. É uma atividade que desperta paixão, valoriza quem produz e traz distribuição de riqueza. Como diz uma vinheta veiculada na TV, o agro é pop!

A maximização do peso do agronegócio no crescimento do PIB brasileiro infelizmente é decorrente da perda de competitividades dos outros setores e do aprofundamento da recessão na economia nacional. Como brasileiro, gostaria que todos os demais setores da economia apresentassem bom desempenho, especialmente a indústria, por se tratar de um processo de geração de emprego e renda que puxa vários outros setores da economia. No primeiro trimestre de 2017, a indústria cresceu apenas 0,9% e o setor de serviços não cresceu no período, enquanto o agronegócio avançou 13,4%.

Por outro lado, não tenho dúvida que o agronegócio é a via que poderia alavancar a retomada do crescimento econômico do País. Afirmo isto considerando que é um setor que exige relativo baixo investimento, onde conquistamos competitividade internacional reconhecida. Além disto, o retorno dos recursos investidos é rápido se comparado à indústria. Outros pontos a favor decorrem do fato de atendermos o mercado nacional e internacional, e contarmos com mão de obra qualificada. Sendo assim, por que não explorarmos melhor aquilo que já possuímos?

Nossas frutas são desconhecidas tanto do mercado interno quanto do internacional. Podemos aproveitar a procura mundial por alimentos saudáveis a apresentar as frutas tropicais. Veja o exemplo do que aconteceu com o açaí. Que mercado fantástico foi criado em torno desta fruta. Mesmo assim, há muito a ser feito desde o cultivo, colheita, processamento e distribuição deste produto. Há uma enormidade de derivados que podem ser gerados a partir do açaí.

A indústria de fitoterápicos também apresentou crescimento considerável. Esta é outra área em que estamos patinando. O potencial é ilimitado. Nossa flora possui compostos naturais que podem ser utilizados na indústria farmacêutica, cosmética e de alimentos. É preciso acordar para este setor que compreende a segunda indústria mundial, perdendo apenas para a indústria bélica. Especificamente na área de medicamentos, nos acostumamos a ser importadores de tecnologias dos grandes laboratórios farmacêuticos europeus e americanos. Para alavancar este setor, vários outros seriam beneficiados como a farmacologia, medicina e química. É a oportunidade de fortificar os mecanismos oficiais de incentivo e proteção do conhecimento.

Outro caminho é apostar na exportação de produtos processados. Agregar valores às commodities tradicionalmente exportados como soja, milho, café e produtos animais. Se exportarmos menos soja e mais proteína, óleo e farelo, a indústria será beneficiada. Serão geradas novas receitas e impostos.

Com os poucos exemplos citados acima, podemos afirmar, sem vacilar, que o agro pode muito mais, pois o agro é MAIS que plantar e colher.

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