Publicidade
Publicidade

Agricultura

Novas fontes de água para o campo

Em meio à crise da escassez de recursos hídricos, soluções inovadoras têm buscado suprir a demanda no campo por água, com o uso de tecnologias que vão da automação até a biotecnologia

PENTAX Image

Em meio à crise da escassez de recursos hídricos, soluções inovadoras têm buscado suprir a demanda no campo por água, com o uso de tecnologias que vão da automação até a biotecnologia

Renan Rigo*

A crise hídrica no Brasil mudou o panorama do consumo de água, especialmente no campo. Até 2013, quando foi elaborada a Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil pela Agência Nacional de Águas (ANA), dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontavam que o Brasil estava entre os quatro países com maior área potencial para irrigação, embora apenas uma pequena parte dela fosse utilizada. Esse potencial se resumia à grande extensão territorial da nação e ao conjunto de fatores físico-climáticos que eram favoráveis ao desenvolvimento da atividade. Nesse aspecto, a área estimada para irrigação naquele ano seria de cerca de 5,8 milhões de hectares ou 19,6% do potencial nacional de 29,6 milhões de hectares. A partir de 2013, essa tendência ficou ainda mais acentuada com a implantação da Política Nacional de Irrigação que objetivava incentivar a ampliação da área irrigada no País, de modo a aumentar a produtividade, promovendo a melhoria da competitividade do agronegócio.

No entanto, o sistema tal como é hoje parece caminhar para um colapso frente às mudanças climáticas que vêm assolando boa parte das regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Segundo o coordenador do curso de Irrigação e Drenagem do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), professor Eduardo Henrique Mendes dos Santos, o produtor agora está refém da chuva por não ter água para irrigar. Ele esclarece, diante da situação, que os agricultores têm buscado alternativas para minimizar os danos e evitar as perdas nas lavouras. “O próprio sistema de irrigação tem se modificado na busca por técnicas que alcancem maior aproveitamento. Apesar de um sistema com pivôs alcançar 80% de eficiência na irrigação, por exemplo, em outro, por gotejamento, essa eficiência atinge níveis acima dos 90%”, avalia.

Gota a gota

A irrigação por gotejamento, aliás, é a aposta de alguns produtores que estão mudando hábitos de consumo. A Netafim, empresa que atua há 50 anos no ramo de irrigação por gotejamento, foi uma das responsáveis por transformar a paisagem árida e sem vida de Israel em um dos maiores exemplos de gerenciamento de recursos hídricos no campo. Segundo o gerente agronômico da empresa, Carlos Sanches, as novas tecnologias inteligentes buscam, agora, irrigar a planta ao invés do solo. “Temos observado uma revolução na otimização de recursos hídricos, disponibilizando tecnologias que reduzem o consumo de água que passa por um colapso no momento”, avalia.

De acordo com a empresa, a irrigação localizada – que irriga a planta e não o solo, colocando água e nutrientes diretamente no sistema radicular das plantas – ajuda a economizar de 30% a 50% da água, além de aumentar a produtividade com a técnica de fertirrigação em até 200%, passando de uma irrigação de desperdício para uma irrigação inteligente.

Em outro caso, a aposta dos produtores reside na regulação hídrica segundo a variação das previsões do tempo e médias históricas de consumo de água. É a opção da administradora Mariana Vasconcelos, de Itajubá (MG), que deu início a uma startup que busca soluções que monitorem a gestão das lavouras por meio de tecnologia e da previsão climática. Aliada principalmente à automação da irrigação, a Agrosmart utiliza um aplicativo – disponível para computadores, tablets ou celulares dos produtores – para monitorar variáveis que afetam o solo e o ambiente, de modo a orientar, quem planta, se vem chuva e assim saber e controlar a torneira da irrigação, economizando. “Mais do que isso, a ideia do aplicativo é monitorar, além das previsões climáticas junto a entidades parceiras, fatores como índice pluviométrico, radiação, entre outros, de maneira a oferecer ao produtor orientações para a tomada de decisões sobre quando plantar ou onde economizar insumos importantes, como a água”, argumenta.

Aplicado em uma fazenda experimental no município de Pedralva (MG), a ideia, segundo Mariana, já tem obtido resultados. “Temos economia de água e energia de cerca de 30% com o uso da ferramenta, aumentando a produtividade. E agora, recentemente, fomos selecionados pelo governo federal para levar a ideia adiante pelo programa de aceleração Start-Up Brasil e nossas expectativas são de que, já em maio, possamos entrar de vez no mercado e contribuir para melhorar o cenário produtivo brasileiro”, salienta.

Alternativas para exposição às intempéries

Não é só a regulação da água distribuída nos cultivares que tem sido modificada. A própria exposição às intempéries provocadas pelo tempo também vem sendo cada vez mais regulada no campo. Um exemplo disso é a utilização de telas agrícolas para o controle da entrada de radiação ultravioleta na lavoura. Segundo a diretora da STM Telas Agrícolas, Natália Ravanhani, existem diversos tipos, desde telas para a cobertura das estufas e viveiros, até mesmo para o solo, em que cada modelo possui uma finalidade: aumento fotossintético, contra pragas, sombra, antigranizo e as que reduzem a temperatura na lavoura. “A mais indicada nesse momento para o controle de consumo de água, seria as telas termorrefletoras de luz, as chamadas Aluminets. Elas reduzem em até 20% o consumo de água pela planta, uma vez que controlam o microclima da plantação”, argumenta.

O investimento varia de R$ 20 mil a R$ 120 mil por hectare, conforme o tipo de tela e a finalidade. Já a resistência, dependendo do modelo do produto, pode variar de três até 20 anos. A diretora explica, ainda, que a tecnologia pode ser aplicada em conjunto  a outras técnicas para minimizar os impactos dos fenômenos naturais. “Quanto mais técnicas agregadas, maior a economia, pois cada tecnologia age de um jeito”, reforça.

A proteção contra o sol, aliás, vai além, em muitos casos e até mesmo a biotecnologia tem avançado nesse aspecto para tentar conter o avanço da destruição provocada pela escassez de água. Em Londrina (PR), pesquisadores da unidade Soja da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), especialistas em ecofisiologia vegetal, estão em busca de uma planta capaz de resistir aos problemas climáticos que podem se repetir com mais severidade nos próximos anos. Em uma parceria com o governo do Japão, esses pesquisadores conseguiram, por meio de manipulação genética, introduzir um gene que torna a soja mais tolerante à seca.

Antes mesmo que a chuva caia 

Existem ainda casos bem mais mirabolantes de como pesquisadores, cientistas e inventores têm buscado soluções cada vez mais inovadoras para os problemas de falta de recursos hídricos, especialmente no campo. No Chile, na região de Coquimbo, por exemplo, um fenômeno atmosférico local permite que produtores extraiam água das nuvens. É que as formações denominadas “nieblas costeras” condensam as nuvens que vêm do mar junto à Cordilheira dos Andes, formando grandes adensamentos úmidos. O sistema natural ocasionava um fenômeno chamado “camanchaca” que seria uma espécie de chuva horizontal, uma neblina muito úmida, responsável por fazer florescer uma terra muito próxima ao mais árido dos desertos, o Atacama – o que chamou a atenção dos pesquisadores.

Tanto foi que, há cerca de 50 anos, cientistas da Universidad de Chile tiveram a ideia de que, se a água não caía das nuvens, mas condensava em névoas muito úmidas, poder-se-ia desenvolver um sistema que captasse essa água diretamente do céu, dando início à fabricação dos atrapanieblas, uma espécie de “capta-nuvem”. O artefato simples – formado por malhas de polietileno de alta densidade de até 150 metros de largura, esticadas entre dois postes de madeira ou aço – condensa na malha as gotas de água que escorrem por uma canaleta até um reservatório. Cada metro quadrado de tela capta em média, quatro litros de água por dia e um modelo de 40 metros quadrados, considerado sustentável, custa em média mil dólares a 1500 dólares, sem utilizar energia ou qualquer outra despesa para seu funcionamento.

Safra-169---Tabela

* Colaboração para Revista Safra

A íntegra desta reportagem está disponível na edição de março da Revista Safra, a partir da página 26.

Foto: Divulgação/Netafim

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>