Na velocidade do agronegócio

Aviação agrícola cresce, mas enfrenta aumento de acidentes e o desafio da sustentabilidade

Diene Batista*

No ritmo do crescimento do mercado agro brasileiro, a aviação agrícola no País é a segunda maior do mundo: só perde para o mercado norte-americano. A previsão para este ano, em que uma supersafra está sendo colhida, é de um crescimento entre 3% a 5%, segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). “O ano passado foi difícil, mas nossa colheita está sendo muito boa, o que tende a colocar mais dinheiro no negócio. Os empresários devem investir na renovação da frota”, explica o diretor-executivo da entidade, Gabriel Colle.

Hoje, o Brasil tem 2.083 aeronaves agrícolas. A maior frota está em Mato Grosso, com 462 aeronaves e onde predomina o uso na cultura de algodão. Depois, vem o Rio Grande do Sul, com 418 e cultivos de arroz; São Paulo, com 311 e utilização nas lavouras de cana-de-açúcar; Goiás, com 277 e plantação de soja; e Paraná, com 140. Estados como Bahia e Mato Grosso do Sul também utilizam os aviões agrícolas para o cultivo da oleaginosa. O trabalho envolve aspersão de defensivos e de fertilizantes, além do lançamento de sementes nos campos.

Do piloto, se exige perícia, atenção e conhecimentos sobre agricultura. O perigo mora em cada decolagem. Na última década, de acordo com Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Aeronáutica, foram 237 acidentes, sendo 18 graves e 44 incidentes – quando não há perdas humanas e materiais. Só neste ano, foram registrados 21 acidentes envolvendo aeronaves voltadas para as atividades no campo. Em 2016, foram 34 e em 2015 aconteceram 24.

O maior número de ocorrências é ocasionado por perda de controle de voo, colisão com obstáculo e falha do motor em voo, segundo os dados colhidos no Cenipa. O Rio Grande Sul – que utiliza as aeronaves agrícolas principalmente nos cultivos de arroz – é o Estado com o maior número de ocorrências: foram 78 na última década. Depois, vem São Paulo, com 78; Mato Grosso, com 34; Paraná, com 29, Minas Gerais, com 19 ocorrências, e Goiás, com 16 (veja infográfico).

O período de safra é de intenso trabalho para os pilotos. Já na entresafra é realizada a manutenção da aeronave, seguindo o que determina a legislação específica. Variáveis como o modelo e o número de horas indicam de quanto em quanto tempo o veículo deve passar por reparos. Segundo o diretor-executivo do Sindag – que representa 140 empresas da área – esse também é o momento para a realização de cursos que miram a segurança ambiental e do próprio piloto. “Temos incentivado formações para que eles tenham capacitação sobre meio ambiente, questões técnicas e de gestão empresarial. Essa associação garante um canal de comunicação e de informação entre as empresas, com o tripé tecnologia, inovação e segurança”, explica.

Hoje, segundo Colle, o segmento enfrenta principalmente três desafios: meio ambiente, relação com a sociedade e jurídico. “Há, por exemplo, uma legislação que determina a distância das pulverizações (250 metros para mananciais e 500 metros para pessoas). Além disso, uma empresa de aviação presta contas ao Ministério da Agricultura, ao Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], à Anac [Agência Nacional de Aviação Civil], à Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e a alguns órgãos ”, cita.

Meio ambiente

Criada há mais de 30 anos, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Aerotex atua hoje no sul e sudoeste de Goiás – a sede fica em Rio Verde – e no Triângulo Mineiro. A empresa tem o nível três – o máximo – da Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS), que atesta a conformidade de equipamentos, instalações e procedimentos. O nível dois certifica a qualidade tecnológica da empresa e o nível um a operação. O trabalho do CAS foi iniciado há cerca de quatro anos e é coordenado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Botucatu, pela Universidade Federal de Lavras (Ufla) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

“Temos evoluído para que as aplicações sejam precisas. A aviação agrícola é uma ferramenta segura para o produtor, levando agilidade ao Brasil, que tem uma agricultura continental”, explica o piloto da Aerotex Tiago Textor, citando a atuação na aplicação de adubos – auxiliando no incremento da produção – e no Sistema de Integração Lavoura Pecuária, em que é feita a semeadura de sementes forrageiras usadas após o plantio da soja. Segundo ele, para fazer o curso para atuação no ramo é necessário ser piloto comercial e ter 370 horas de voo. O salário é calculado sobre o valor da área trabalhada.

A chegada do GPS à aviação agrícola, no fim dos anos 1990, foi um verdadeiro divisor de águas para a área, avalia Textor. Com a ferramenta, foi possível elevar a precisão das aplicações e a economia de insumos. Desde então, outras tecnologias surgiram, como a dos fluxometros: aparelhos que controlam o fluxo de defensivos, independente da velocidade dos aviões. “Hoje em dia, já é possível fazer todo o planejamento do voo antes de decolar, com o mapa da área do cliente, inserindo do computador direto no GPS do avião”, explica.

Órgão trabalha pela prevenção

Nos últimos dez anos, o Cenipa emitiu 182 recomendações envolvendo acidentes com aeronaves agrícolas. Segundo o major aviador Carlos Henrique Baldin, investigador de acidentes aeronáuticos e porta-voz do órgão, a atividade tem chamado a atenção, na última década, pelo aumento do número de acidentes. “Tem um risco a mais, justamente pelo fato de voarem baixo e próximo a obstáculos, então, requer um pouco mais de cuidado”, frisa.

O foco do Cenipa é na prevenção. No Rio Grande do Sul – Estado com o maior número de ocorrências – é realizado um curso orientando sobre os riscos da operação, por exemplo. Já as recomendações expedidas podem ser direcionadas à própria empresa de aviação ou à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), para que regras sejam aperfeiçoadas. “Via de regra, o que está levando a acidentes, são os desvios dos regulamentos de segurança. Assim, as recomendações ficam mais focadas nos operadores”, explica.

Só neste ano, foram registrados 21 acidentes envolvendo aeronaves agrícolas. Em 2016, foram 34 e em 2015 aconteceram 24. A supersafra que está sendo colhida, na avaliação dele, tem relação com esses números. “A tendência é que, com isso, a atividade aumente. Com um número maior de voos, há a possibilidade de mais acidentes também”, diz.

Sindicato

No caso do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), são ofertados cursos e oficinas periódicos para que os pilotos entendam as causas dos acidentes e os evitem, afirma o diretor-executivo da entidade, Guilherme Colle. Segundo ele, também são realizadas reuniões frequentes com o Cenipa, para a busca de orientações a respeito das ocorrências.

Goiás é o sexto em acidentes

Com a quarta maior frota do Brasil, com 277 aeronaves, Goiás é o sexto Estado brasileiro que mais registrou ocorrências envolvendo aviões agrícolas nos últimos dez anos. Foram 12 acidentes e quatro incidentes, em 11 cidades. Luiz Alves, distrito de São Miguel do Araguaia, é o que teve mais casos – três -; seguido de Itumbiara e de Vila Propício, com dois acidentes cada.

Em março deste ano, uma aeronave agrícola caiu após bater em uma linha de transmissão de energia elétrica em Barro Alto, na região central de Goiás. O acidente aconteceu dentro de um canavial, às margens da BR-080, na zona rural da cidade. Já em dezembro do ano passado, o piloto Telri Patrick Garcia Carneiro, 25 anos, morreu em Santa Helena de Goiás, depois de que a asa da aeronave em que estava colidiu com uma árvore.

Embraer aposta em modelo sustentável

Responsável por cerca de 60% da frota de aviões agrícolas no Brasil, a Embraer lançou o Ipanema 203, modelo que já tem as especificações da Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS). O desenvolvimento da aeronave contou com a parceria da Universidade de São Paulo – campus de São Carlos e o objetivo, segundo o gerente comercial do Programa Ipanema, Marcelo Gerulaitis, era melhorar a produtividade e a deposição da aeronave, além de agregar em tecnologia para maior precisão a serviço da agricultura.

O resultado foi dois metros a mais em envergadura de asa e a permanência do motor a etanol. O altímetro a laser, que permite o piloto saber a exata altura que está em voo e somente aplicar o defensivo ou fertilizante na correta medida para melhor aplicação, foi certificado. O avião também possui os DGPSs com precisão submétrica e possibilidade de armazenar os dados para checagem posterior de qualidade. Outro diferencial para o CAS é o fluxômetro, que evita a pulverização de um volume maior ou menor que o receitado pelo engenheiro-agrônomo.

Gerulaitis diz que a supersafra que está sendo colhida já impactou na aquisição de aeronaves. Na Agrishow, onde o Ipanema 203 foi exposto, foram assinados cerca de dez vendas. “Acreditamos que as boas perspectivas da safra 2016/2017 têm influência nesse resultado, mas também dividimos o número com a performance do Ipanema 203 que lançamos em 2015. Os clientes que estão utilizando a aeronave estão constatando um aumento de 30% a 50% de produtividade em comparação com nosso modelo anterior”, informa.

Perigo no ar

Ocorrências agrícolas nos últimos dez anos

Período: De 2006 a 2017

Acidentes: 237

Incidentes graves: 18

Incidentes: 44

Ano a ano

2006:

Acidentes: 11

Incidentes graves: 1

Incidentes: 13

2007:

Acidentes: 12

Incidentes graves: 2

Incidentes: 15

2008:

Acidentes: 17

Incidentes graves: 2

Incidentes: 5

2009:

Acidentes: 10

Incidentes graves: 0

Incidentes: 2

2010:

Acidentes: 16

Incidentes graves: 0

Incidentes: 0

2011:

Acidentes: 26

Incidentes graves: 1

Incidentes: 2

2012:

Acidentes: 18

Incidentes graves: 2

Incidentes: 1

2013:

Acidentes: 19

Incidentes graves: 0

Incidentes: 4

2014:

Acidentes: 29

Incidentes graves: 3

Incidentes: 1

2015:

Acidentes: 24

Incidentes graves: 1

Incidentes: 1

2016:

Acidentes: 34

Incidentes graves: 4

Incidentes: 0

2017:

Acidentes: 21*

Incidentes graves: 2

Incidentes: 0

*Até o fechamento desta reportagem.

Tipos**:

Perda de controle de voo: 66

Colisão em voo com obstáculo: 54

Falha de motor de voo: 53

Perda de controle no solo: 32

Manobras a baixa altura: 14

Pane seca: 12

Área geográfica:

Rio Grande do Sul: 78

São Paulo: 58

Mato Grosso: 34

Paraná: 29

Minas Gerais: 19

Goiás: 16

Mato Grosso do Sul: 15

Santa Catarina: 9

Maranhão: 8

Bahia: 7

– Goiás: 12 acidentes e 4 incidentes

Luiz Alves: 3 acidentes

Itumbiara: 2 acidentes

Vila Propício: 2 acidentes

Caiapônia: 1 acidente

Jataí: 1 acidente

Montes Claros de Goiás: 1 acidente

Santa Helena de Goiás: 1 acidente

Uruaçu: 1 acidente

Goianésia: 1 incidente

Rio Verde: 2 incidentes

Itaberaí: 1 incidente grave

** Cinco principais tipos de ocorrência

Fonte: Cenipa

*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de junho da Revista Safra, a partir da página 22.

Foto: Graziele/Sindag

 

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