Na mira da ciência

Por meio da identificação de minerais, pesquisa revela autenticidade dos alimentos orgânicos; mercado vive expansão na produção e no consumo

Diene Batista*

Com um mercado que cresce 30% ao ano, mundialmente, e movimenta R$ 2,5 bilhões anualmente, no Brasil, os orgânicos conquistam, pouco a pouco, espaço na mesa dos brasileiros. In natura ou processado, esse tipo de alimento já é produzido por 22,5% dos municípios do Brasil, de acordo com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa). A produção é baseada em um sistema orgânico ou é resultado de um processo extrativista sustentável, que não prejudica o meio ambiente. Mas como garantir a autenticidade desses alimentos?

Para responder a essa pergunta, pesquisadores do Instituto de Informática (INF) da Universidade Federal de Goiás (UFG) fazem o levantamento dos minerais encontrados nos alimentos produzidos convencionalmente e pelo sistema orgânico para atestar a veracidade dos produtos. O estudo é multidisciplinar – envolve química, matemática e estatística – e colaborativo: além da universidade goiana, envolve a Universidade de São Paulo (USP) e a University of Central Florida (UCF).

O pesquisador do Instituto de Informática da UFG Rommel Melgaço Barbosa explica que desde 2014 o grupo tem se dedicado à comparação entre o alimento orgânico e o convencional. Por meio de algoritmos – usados pela primeira vez com esse objetivo – é estabelecido um padrão da quantidade de minerais presentes em determinado alimento orgânico. Este será o parâmetro para a comparação com o tradicional. “A olho nu, seria impossível perceber a diferença. Ao deparar com um alimento rotulado de maneira falsa, é possível dizer que ele é convencional, baseado nesse padrão”, afirma.

Segundo ele, são analisadas várias amostras de alimentos orgânicos e tradicionais e gerada “uma grande planilha” com a quantidade de minerais encontrados para cada uma dessas porções. “Usamos métodos matemáticos e computacionais para achar uma espécie de fórmula. Diante de uma nova amostra, colocamos os elementos químicos nesse padrão, que devolve, como resposta, se é [alimento] convencional ou orgânico”, detalha.

Para chegar a esse modelo, o trabalho envolve pesquisadores da USP da área de toxicologia. Eles usam um equipamento conhecido como espectrômetro de massa para criar a planilha com a composição dos alimentos. Os dados são enviados para os pesquisadores goianos, que utilizam a computação para analisá-los e encontrar um padrão para orgânicos ou tradicionais. Já foram estudados café, arroz, açúcar, suco de uva e de laranja. Alface e tomate ainda estão com as análises em andamento.

Os próximos passos do estudo visam ampliar a investigação dos alimentos. “Com esse método, é possível estabelecer uma seleção de variáveis. Podemos começar com 40 minerais para analisar o café, por exemplo, mas percebemos que com apenas quatro é possível diferenciar o convencional do orgânico. Ou seja, conseguimos chegar aos minerais mais importantes que estão separando um e outro”, acrescenta.

Segundo ele, essa possibilidade de seleção de minerais decisivos na composição dos alimentos tradicionais e orgânicos – que varia de alimento para alimento – traz implicações para a atuação do químico e do agrônomo.  “O profissional pode analisar as implicações desses minerais para a saúde, por exemplo”, afirma.

Expansão

O presidente da Associação Brasileira de Orgânicos (BrasilBio), Matheus Volkmann, explica que o negócio de orgânicos está em franca expansão. Por ano, mundialmente, o crescimento é de 30%, tendência de incremento seguida pelo Brasil. “É um mercado pequeno, que cresce bastante. A população está sabendo o que é orgânico, as diferenças [com outros alimentos], então o mercado acaba sendo puxado”, avalia.

Na análise de Volkmann, a aprovação de uma legislação específica no Brasil deu um impulso para o crescimento da produção dos orgânicos. Aprovada em dezembro de 2003, a Lei nº 10.831 traz as definições de sistema orgânico de produção agropecuária e de produto orgânico, bem como a necessidade de certificação para a comercialização. “Foi uma conquista do setor”, define.

O mercado de consumo brasileiro também cresceu. “No passado, o consumo interno era de 10%. Hoje, praticamente metade da produção é consumida internamente. Com certeza, houve um impacto da legislação sobre esse aumento”, afirma, citando a necessidade de os produtos comercializados estamparem o selo federal do SisOrg

Ainda de acordo com ele, existe uma demanda por “praticamente todos os produtos”. Essa maturação do negócio aumentou o número de produtos industrializados orgânicos, que são um “parâmetro novo para o mercado”, principalmente na indústria dos grãos. “Tanto o mercado nacional quanto o internacional têm alta demanda, puxada pela cadeia de consumo da indústria e do consumidor final”, diz.

Produção regularizada

Para regularizar sua produção, o produtor deve obter uma certificação, que pode ser conseguida por meio de uma Certificadora por Auditoria ou se associando a um Sistema Participativo de Garantia (SPG), que precisa estar sob a certificação de um Organismo Participativo de Avaliação da Qualidade Orgânica (Opac). Na primeira opção, a propriedade receberá visitas de inspeção inicial e periódicas, além de seguir normas específicas da certificadora e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

No caso da certificação por Opac, o produtor deve participar ativamente do grupo ou núcleo a que estiver associado, comparecendo a reuniões periódicas. A ideia é que o próprio grupo assegure a qualidade dos produtos, em um sistema em que todos tomam conta de todos e respondem, juntos, se houver fraude ou qualquer irregularidade que não apontarem e corrigirem. Se o produtor não corrigir, o grupo deve exclui-lo, cancelar o certificado e informar ao Mapa.

Quem opta pelo cultivo de orgânicos, enfrenta desafios como a falta de insumos específicos para esse tipo de produção, conforme explica o presidente da Associação Brasileira de Orgânicos (BrasilBio), Matheus Volkmann. “As alternativas são poucas em comparação à agricultura tradicional. Há a necessidade de que se apoie o desenvolvimento de insumos para a produção orgânica”, defende.

App para feiras

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) lançou o aplicativo Mapa de Feiras Orgânicas, que identifica pontos de venda e permite traçar rotas até a feira escolhida. O app também reúne receitas saudáveis e sustentáveis com alimentos regionais. A atualização dos dados do mapa é feita de forma colaborativa. Produtores e consumidores podem cadastrar novas feiras ou atualizar informações dos locais já existentes. A ferramenta está disponível no IOS e no Android.

Fique de olho!**

Produto orgânico: In natura ou processado é obtido em um sistema orgânico de produção agropecuária ou oriundo de processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local.

Comercialização: Devem ser certificados por organismos credenciados no Ministério da Agricultura. Os produzidos por agricultores familiares cadastrados no Ministério da Agricultura (Mapa) – e comercializados exclusivamente em venda direta- são dispensados de certificação.

Feiras: O produtor sem certificação deve apresentar a Declaração de Cadastro junto ao Mapa, que deve ser mostrada sempre que o consumidor e a fiscalização pedirem.

Mercados/supermercados: Devem estampar o selo federal do SisOrg em seus rótulos, sejam produtos nacionais ou estrangeiros. Se o produto for vendido a granel deve estar identificado corretamente, por meio de cartaz, etiqueta ou outro meio.

Restaurantes/lanchonetes/hotéis: Precisam manter à disposição dos consumidores listas dos ingredientes orgânicos e dos fornecedores destes ingredientes.

**Fonte: Mapa

*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de junho da Revista Safra, a partir da página 21.

Foto: Arquivo/Vandréia de Paula

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