Mitos, fatos e lei

Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

Mito é uma narrativa de tradição oral, fundamentada no senso comum, ou seja, é uma narrativa contada e aceita por muitos; onde o fato de ser verdadeira ou falsa não é importante. A imaginação passa a ser mais importante que os fatos. Alguns mitos fazem parte do folclore brasileiro como a Saci Pererê, Boto Rosa e o Curupira. Outros, da cultura popular, como a narrativa que ingerir leite e manga ao mesmo tempo faz mal à saúde. Em países com baixo índice de escolaridade e estrutura democrática fragilizada, a disseminação de mitos é um perigo ao estado de direito, à democracia e ao desenvolvimento social. A agricultura, ao contrário do que era de se esperar, por ser um dos pilares da economia brasileira, é o setor que mais sofre a influência de mitos. Temas como o uso de defensivos agrícolas, trabalho escravo, irrigação, transgênicos, aviação agrícola e outros fazem a festa dos movimentos tidos por sociais, gerando insegurança jurídica e física para produtores que têm no campo sua principal fonte de renda. Dentro deste cenário é preocupante o número crescente de projetos de lei que proíbem o uso da aviação agrícola no campo. Projetos, muitas vezes, fundamentados em mitos, no imaginário popular e relatos não apurados criteriosamente. Propostas que,ao serem sancionadas, assumem força de lei. Quanto à aviação agrícola, seguem algumas considerações.

Esta atividade está presente há 70 anos no Brasil, cobrindo aproximadamente 30% da área cultivada nacional. É uma tecnologia de pulverização de fertilizantes, defensivos e agentes de controle biológico em culturas importantes como milho, soja, café, eucalipto, cana-de-açúcar, banana,arroz e seringueira. Basicamente, o avião faz o mesmo serviço que é feito pelos pulverizados costais e tratorizados, com algumas vantagens.

A aviação agrícola é uma das atividades mais regulamentadas e monitoradas pelos órgãos governamentais. Utiliza as modernas tecnologias da agricultura de precisão, sendo uma garantia de segurança e profissionalismos, o que não é tão evidente em outros métodos de pulverização, especialmente o costal.

Agronomicamente, a pulverização aérea é a possibilidade de aplicação de produtos em grandes áreas em um curto espaço de tempo, o que melhora a eficiência das pulverizações. Evita a compactação do solo, a disseminação de doenças e pragas, além de não causar danos mecânicos às culturas, o que se observa quando equipamentos terrestres são utilizados.

Para o trabalhador rural, é o método mais seguro de aplicação de defensivos na lavoura pois evita o contato entre o aplicador e o produto. Já a pulverização costal, quer manual ou motorizada, é aquela que oferece mais risco de intoxicação do operador. Seja pelo maior tempo de exposição, ou pela insistência do aplicador em não adotar corretamente os equipamentos de proteção e as boas práticas agrícolas.

É importante destacar que em culturas cujas copas são elevadas como seringueira, cacau, banana e eucalipto, a pulverização por tratores apresenta baixíssima eficiência no controle fitossanitário. A falta de pulverização aérea nestas culturas pode inviabilizar a atividade econômica destas culturas, trazendo sérios prejuízos sociais e econômicos.

Sem dúvida, a aviação agrícola, assim como qualquer outra tecnologia disponível, precisa ser utilizada dentro dos critérios estabelecidos. Se houver falhas ou excessos, estes precisam ser apurados e corrigidos como a própria legislação determina. Áreas em que o uso do avião agrícola é restritiva, logicamente, precisam ser respeitadas, o que é facilmente monitorado com base nas novas tecnologias do Sistema de Posicionamento Global.

Por outro lado, a proibição do uso da aviação agrícola compromete o avanço da agricultura mais racional e sustentável, impede o desenvolvimento e aperfeiçoamento tecnológico no campo. São problemas criados no campo em nome de caprichos ideológicos descomprometidos com a sustentabilidade do setor produtivo.

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando necessariamente a opinião editorial do Portal Revista Safra.

Publicidade

Publicidade