Carlos Costa

Mais espaço, menos estresse

Suinocultura busca adequar ambientes – sobretudo durante gestação das matrizes – para garantir bem-estar aos animais

Diene Batista*

Produtor e exportador de carne suína, o Brasil tem se preocupado cada vez mais com o bem-estar desses animais. Na esteira da legislação europeia – considerada ampla e rigorosa no que diz respeito aos manejos e às instalações – o País, mesmo com passos tímidos, busca melhorias no trato com os suínos, durante a vida. Tudo para garantir mais sabor e saúde para a carne que chega à panela do brasileiro. O alimento é rico em vitamina B1, ferro, selênio e zinco. Além disso, tem baixo teor de colesterol e de gordura.

Mundialmente, esse conforto está ancorado em cinco liberdades. O animal deve ser criado livre da dor, de injúria e de doenças, com prevenção, diagnóstico rápido ou tratamento. Também precisa viver sem desconforto, fome e sede, além de estar livre para expressar o comportamento normal – nesse ponto, o fornecimento de espaço suficiente é fundamental. Ainda precisa ser criado sem medo e sem estresse.

No ano passado, Brasil e União Europeia formalizaram um convênio para incentivar os produtores a adotarem o novo sistema em suas granjas. “Existe uma iniciativa dos produtores e das grandes indústrias no sentido de trabalhar o bem-estar animal e migrar seu sistema de produção para esse conceito”, explica o presidente da Comissão de Suinocultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) e da Comissão de Aves e Suínos da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Iuri Pinheiro Machado.

O ponto central é a disponibilização de mais espaço para as matrizes em gestação. No sistema convencional, a fêmea prenhe permanece durante os 112 dias em uma pequena baia onde descansa e se alimenta. Somente no parto sai do confinamento. Em seguida, retorna e termina a fase de lactação. Já nas granjas de bem-estar suíno, os animais são criados soltos e em grupos. Nelas, a gestação é coletiva, o que reduz o número de abortos, pois as fêmeas sentem-se mais confortáveis e dispostas. Na União Europeia, as baias de gestação foram eliminadas da produção em 2013.

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Suínos e Aves, Osmar Dalla Costa explica que por meio do manejo coletivo o animal pode expressar seus comportamentos inatos, como exercitar-se, interagir com outros animais da sua espécie, explorar o ambiente, delimitar seu espaço de moradia e de descanso, além de estabelecer uma hierarquia social. “O sistema requer uma maior atenção e qualidade de manejo e supervisão, pois apesar das vantagens, um alto grau de competitividade, que pode resultar em brigas, é evidenciado quando o sistema tem uma quantidade de bebedouros e comedouros, e densidade inadequados”, alerta.

Legislação                                                             

Na visão dos produtores, a legislação brasileira, considerada flexível – ela não especifica qual o sistema de criação deve ser adotado para garantir o bem-estar – ajuda o segmento. É que algumas adaptações estruturais demandam investimentos e, por conseguinte, tempo e linhas de crédito para sustentar essas mudanças. Segundo o presidente da Comissão de Suinocultura da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Iuri Pinheiro, atualmente, ações voltadas para a educação do produtor e das equipes das granjas estão sendo realizadas.

“Nesse momento, uma legislação mais rígida colocaria em risco a viabilidade do sistema de produção. Temos que trabalhar no sentido de educar os produtores e de adequar os projetos novos a essa temática. Essa adequação pode ser feita com vários graus de tecnologia: desde uma baia convencional até a utilização de um equipamento que distribua ração de forma mais tecnificada”, frisa Pinheiro.

Para Dalla Costa, da Embrapa Suínos e Aves, a transição para o sistema de alojamento em baias coletivas é uma tendência mundial e um caminho sem volta. Mas a “legislação anêmica” sobre o bem-estar animal faz com que, muitas vezes, o Brasil siga “normas e exigências internacionais impostas por mercados consumidores e que podem não se adequarem à realidade de nosso sistema de produção”.

Ele defende uma mobilização com o objetivo de desenvolver normas, exigências mínimas e novas tecnologias que permitam ao setor produtivo realizar uma transição sem grandes impactos econômicos para toda a cadeia produtiva. Dalla Costa cita ainda decisão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), a pedido da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), que reduziu impostos para a importação das estações de alimentação eletrônicas, que melhoram o manejo alimentar do sistema de alojamento coletivo.

“Essa redução pode funcionar como um estímulo para produtores que decidam eliminar as gaiolas de gestação, e permite aumentar o aporte tecnológico da produção”, afirma, citando que a adequação às regras de bem-estar animal pode trazer vantagens como: agregação de valor ao produto final, criação de nichos especializados, abertura e manutenção dos mercados consumidores e melhoria da opinião pública frente ao sistema de produção de alimentos.

Mercado

Hoje, de acordo com os últimos dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o País ocupa a quarta posição no comércio internacional de suínos, representando 3% da carne desse tipo produzida no mundo. Segundo Iuri Pinheiro, da Faeg, a adequação às regras de bem-estar animal ainda não é uma exigência do mercado internacional. “Com certeza, em um futuro próximo, pode ser. Por isso, não podemos ignorá-la. Essa é uma necessidade do ponto de vista humano e mercadológico. O prazo, quem vai determinar, é o mercado. É uma demanda crescente, mas não imediata”, afirma.

Softwares auxiliam gestão

A tecnologia pode ser aliada do produtor na hora de garantir a adequação às normas de bem-estar animal. Um exemplo é o software Tecnicon Business Suite, que organiza todos os processos de criação suína desde a fábrica de ração, Unidade de Produção de Leitões (UPL), creche, terminação, até a última fase dentro do frigorífico. O sistema pode ser acessado pelo celular ou pelo computador – conectados ou não à internet.

Um exemplo de atividades desenvolvidas é o controle do calendário de vacinações, o acompanhamento técnico em cada lote e fase da criação suína. Um cronograma com as atividades que o técnico precisa executar na granja é gerado e enviado ao profissional, por meio do aplicativo no smartphone. “O software aprimora a gestão da agroindústria e aperfeiçoa a comunicação entre as partes envolvidas no processo da suinocultura, permitindo o controle total da unidade integradora sobre a produção”, diz o CCO da Tecnicon, Jair Wasczyviuk.

Segundo Wasczyviuk, os custos para a implantação do sistema variam de projeto para projeto. O retorno do investimento também depende do tamanho da cooperativa e do quanto foi investido. “Para empresas de pequeno a médio porte o retorno pode chegar com dois ou três ciclos de produção. Já os grandes produtores têm um retorno rápido deste investimento”, informa.

Seis passos para o bem-estar suíno:

  1. O animal continua mamando na porca nas primeiras semanas de vida;
  2. Bebe água limpa e fresca;
  3. Come somente ração à base de milho, soja, minerais e vitaminas;
  4. Vive em ambiente limpo e controlado, acompanhado por pessoas capacitadas e supervisionado por médicos-veterinários e zootecnistas;
  5. É abatido em frigoríficos com inspeção veterinária oficial, que garante a sanidade do produto final e a qualidade da carne;
  6. A carne suína chega ao mercado nacional em cortes porcionados para atender às necessidades do consumidor atual.

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de setembro da Revista Safra, a partir da página 32.

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