Hora de rever a matriz de riscos

Renata Batista é consultora de comunicação empresarial

Há uma frase do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln que de tão repetida se converteu quase em ditado popular. Capaz de exercer sua liderança sob os holofotes e também nos bastidores, o político que liderou o país durante a Guerra civil e aboliu a escravidão disse que é possível enganar a todos por algum tempo; enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.

No momento em que o Brasil passa por uma revolução em seus valores, quando setores inteiros estão sendo obrigados a rever suas práticas, a sabedoria dessa constatação não pode ser desprezada. A verdade é que está cada vez mais difícil enganar qualquer um por menos tempo que seja. Basta um celular, com câmera, acesso à internet e às redes sociais, e o que era segredo se torna público e pode gerar uma crise na empresa, causar estrago na reputação e, no limite, fazer desaparecer um negócio construído ao longo de décadas.

O problema é que muitos desses riscos sequer estão mapeados. Por desinteresse, por ignorância (no sentido de não saber) ou mesmo por negação, a maioria das empresas desconhece os fatores que podem atingir suas reputações. Grandes corporações, de setores críticos como mineração e petróleo, levaram décadas para perceber a importância de mapear seus riscos e adotar medidas para mitigá-los. Penaram também para aprender a fazer isso. Mas hoje existem ferramentas e profissionais treinados, capazes de avaliar toda a cadeia de negócios, do campo à gôndola, das questões socioambientais aos relacionamentos entre países.

Essa preocupação, a de observar além do que é imediato, é ainda mais relevante no agronegócio, setor que depende fortemente do mercado externo e padece de uma imagem fragilizada por práticas pouco sustentáveis que eram adotadas no passado recente. É preciso estar preparado para avaliar riscos não apenas pelos próprios códigos e crenças, mas de pontos de vista tão dispares quanto o de um jornalista de São Paulo ou Brasília, de um blogueiro em Nova Iorque ou de um grupo no Facebook formado por mães de um país europeu.

Compreender o impacto das transformações culturais que estão acontecendo no mundo, das novas tecnologias é um desafio até para empresas que já fizeram o dever de casa. Mesmo quem já tem os fatores críticos levantados, precisa rever sua matriz de risco, buscar novos olhares e, a partir daí, atualizar os cálculos, rever posturas e se preparar para as crises que, mesmo nas empresas mais preparadas, eventualmente ocorrem. Afinal, o equilíbrio de forças também se altera, seja no nível local, nacional ou global.

No dia a dia, os gestores podem até optar por assumir alguns riscos. É da natureza do capitalismo que a tomada de decisão seja decorrente do cálculo econômico, o vulgarmente chamado custo-benefício. O que não se pode é ficar na ignorância, tratar a questão com descaso.

Nada potencializa mais os riscos do que tomar decisões de forma intuitiva. Conhecer fatores críticos, mitigá-los ou estar preparado para enfrentar crises requer conhecimento das escolhas que são feitas e dos impactos e desdobramentos que podem surgir.

No momento em que a palavra de ordem é transparência, a frase do ex-presidente dos Estados Unidos vem nos lembrar o quanto fazer os cálculos corretos, observando as novas exigências da sociedade, é importante para qualquer atividade. Não se trata de inocência ou humildade. A necessidade de rever crenças arraigadas, atitudes arrogantes foi uma das principais constatações do homem que lidou com a realidade do seu tempo e ajudou a construir uma potência.

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