Divulgação/Faeg

Foco no aumento da produção de leite

Mudanças na gestão e no manejo viabilizam incremento de ganhos na atividade leiteira, inclusive no período de estiagem

 Carla Borges* 

Produtores de leite há quase 17 anos no Sítio Primavera, em Morrinhos (GO), numa propriedade de 22 hectares, Antônio Eduardo Sobrinho, 61, e sua mulher, Maria Aparecida Mendes Eduardo (foto), 61, viram sua realidade mudar drasticamente – para melhor – nos últimos seis anos. Em 2011, o casal tinha 30 vacas, que produziam entre 70 e 80 litros de leite por dia. A ordenha era manual, feita por Maria Aparecida, a dona Cida, como é mais chamada. Não havia técnicas específicas para a alimentação do gado. Eles seguiam a lida comum a outros produtores de leite da família e conhecidos. Hoje, com 23 vacas em lactação, a produção no sítio é de 300 litros diariamente. “Antes, nós tínhamos muito gado e pouco leite. Hoje são menos vacas e mais leite, dá até um lucrinho bom”, relatou Eduardo Sobrinho à Safra no Dia de Campo realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) em sua propriedade, no início de junho. “A gente pensava que sabia mexer com leite, mas não sabia. Mudamos totalmente”, diz dona Cida.

O fluxo de caixa da família, revela o consultor técnico do Senar Goiás Carlos Eduardo Carvalho, mais do que triplicou: saltou de R$ 20 mil para R$ 70 mil por ano. Hoje o sítio tem mais vacas do que bezerros, menos animais, mas com melhoramento genético. Tudo isso foi conquistado com investimentos relativamente pequenos. Foi mais uma mudança na forma de gerir o negócio e acolher as orientações dos consultores do Senar. Hoje, em plena seca, as condições climáticas praticamente não são sentidas. Quatro hectares da propriedade são usados para a produção de alimentação balanceada para o gado. Eles foram transformados em piquetes, onde o capim – braquiária, em maior quantidade, e mombaça, de alto valor nutritivo – cresce saudável graças a um sistema de irrigação por aspersão, controlado de perto por Eduardo Sobrinho, sempre atento aos frequentes desencaixes dos canos provocados por pisadas do gado quando se alimenta.

A ordenha deixou de ser manual. Todas as manhãs, dona Cida encaixa as teteiras nas vacas e extrai o leite. A coleta já chegou a 480 litros, mas o casal preferiu ficar com menos animais e investir em melhoramento genético. No final de maio, 20 novilhas foram inseminadas. Todos os animais são das raças girolando e holandês. “Vamos dobrar a produção”, anuncia Eduardo Sobrinho, confiante. A produção é toda vendida para uma cooperativa da região. Todos os investimentos foram feitos com recursos próprios, graças ao gerenciamento do pequeno negócio. Essa, aliás, é a primeira lição, colocar tudo no papel. É também a que inicialmente provoca mais resistências nos produtores. Mas depois que eles aderem, veem que literalmente só têm a ganhar.

“Se eu fizer conta, paro de tirar leite”. Essa é a frase que geralmente os produtores usam quando os técnicos falam que tudo deve ser anotado e contabilizado, até mesmo a quantidade de leite que é destinada ao consumo próprio. “Depois, eles percebem a importância disso”, conta a médica-veterinária Josiany Costa Fernandes, do Senar. Ela informa que quando teve início o projeto, em 2011, ainda com o nome Balde Cheio, os produtores de leite da região de Morrinhos faziam tudo pelo sistema tradicional, tirando leite manualmente, de gado não especial e sem controle de custos. Para ela, a grande mudança é na alimentação dos animais, com pastagem intensificada. Além de o volumoso hoje ser mais barato, os resultados são otimizados em áreas menores. “Eles deixam de comprar ração concentrada de fora para fabricar alimentos de qualidade na propriedade”, relata.

Josiany diz que uma preocupação frequente é com o tipo de capim que será plantado, mas esclarece que o manejo adequado, com boa adubação, é mais importante. Já no primeiro ano é possível observar os resultados. “Não existe receita de bolo, cada um faz nas suas condições e na sua velocidade”, esclarece. As anotações de todo o processo transformam-se em gráficos, que mostram todo o custo do processo, principalmente com a alimentação, que é o mais caro.

‘Receita’ copiada

Menos gado e mais leite. A equação simples, que deu certo para Eduardo Sobrinho, também é a fórmula do sucesso para Manoel Dias Carneiro, que produz leite em sua propriedade de 51 hectares em Palmeiras de Goiás, dos quais 1,8 hectare é utilizado para a formação de piquetes de pastagem rotativos. Hoje ele tem 25 cabeças na fazenda, das quais 14 em lactação, com média de produção diária de 12,7 litros cada. Carneiro reconhece que a produtividade poderia ser melhor, mas ele apostou em gado nelore e agora está investindo em melhoramento genético para ter holandesas. “O que manda é pastagem e genética”, ensina. Por isso, ele vendeu a maior parte do gado que tinha e selecionou. “Hoje tenho menos gado e mais leite, graças ao acompanhamento técnico”, revela. Carneiro admite ainda que “produtor é meio relaxado” em relação à gestão do próprio negócio. “Antes eu era tirador de leite. Agora, estou começando a virar produtor”.

A notícia dos bons resultados alcançados por Antônio Eduardo Sobrinho e dona Cida correu e atraiu o engenheiro civil Adalberto Ribeiro Melo, 54. Com uma câmera fotográfica a tiracolo, ele acompanhou o Dia de Campo realizado pelo Senar no Sítio Primavera e fez registros dos animais, do pasto, da irrigação, do manejo. Ele contou à Safra que comprou recentemente uma propriedade vizinha, de 4,5 alqueires, que ficará aos cuidados do irmão, Donizeti Ribeiro Neto, 61, acostumado à rotina do campo. “Já tirei muito leite, mas só na mão”, disse. Melo está entusiasmado com a propriedade, que adquiriu há menos de dois meses, e estava particularmente interessado na técnica de plantio de capim em piquetes. “Estou começando a organizar o local, dando os primeiros passos”, definiu.

Tecnologia a favor da rentabilidade

O consultor técnico Carlos Eduardo Carvalho explica que o programa Senar Mais Leite foi criado depois de um estudo realizado com a cadeia produtiva mostrar que mais de 80% dos produtores não tinham acesso à assistência técnica. “Buscamos aplicar tecnologia para que eles tenham renda na propriedade. Estamos mostrando que o leite é mais viável do que qualquer outra cultura”, diz. Além disso, intensificando as áreas de pastagem, reduz-se a pressão sobre a floresta. “É um método sustentável ambientalmente”, observa Carvalho. Para superar problemas nesse período de seca, a solução é usar irrigação no pasto. “É mais em conta do que comida no coxo e um dos fatores para ser mais competitivo é o custo mais barato de irrigação”. O método por aspersão utilizado nas propriedades assistidas utiliza pouca água.

Superintendente do Senar em Goiás, Antônio Carlos de Souza Lima Neto diz que a expectativa é organizar os produtores em torno de ações de formação continuada, aliadas à assistência técnica e gerencial, como as que vêm sendo feitas com produtores de leite e com integrantes de outras seis cadeias produtivas. “Essa é a oportunidade que pequenos e médios produtores têm de ter técnicos em suas propriedades, acompanhando de perto, com visitas mensais. Os resultados são visíveis, na forma de mais ganhos nas propriedades assistidas”, avalia, ressaltando a importância da difusão de tecnologia na propriedade, incorporando-a ao dia a dia.

*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de julho da Revista Safra, a partir da página 42.

 

 

 

Publicidade

Publicidade