Falta d’água não é problema!

Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável

A falta d’água observada nos três últimos anos chama-me a atenção para a forma como encaramos as dificuldades do dia-a-dia. Parece até que as variações climáticas passaram a existir agora. Lembro-me da falta de água para o gado de Abraão, patriarca do Judaísmo, há quatro mil anos. Do período de seca previsto por José, no antigo Egito, o que levou o rei decretar medidas emergenciais, que acabou projetando o Egito, política e socialmente, no mundo antigo. É necessário pensar no convívio e superação de problemas e não na vitimização decorrente do mesmo.

Tenho acompanhando os recentes fenômenos da natureza que causam destruição e morte. Foram terremotos, tsunamis e furacões. Além de secas e incêndios florestais de grandes proporções. Sobre tais fenômenos não temos controle. É notável como os diferentes países se preparam ou não para enfrentar estas adversidades. Estar preparado ou não, faz toda a diferença, não no fenômeno em sim, mas nos danos sofridos.

Os danos causados pela falta de água para a agricultura podem ser evitados ou mitigados caso medidas sejam adotadas com antecedência. É possível assumir uma postura proativa para reduzir os impactos econômicos e sociais, decorrentes das oscilações na intensidade das chuvas. Por outro lado, enfrentar adversidade sem o devido preparo, tem um alto custo. Como diz o ditado, neste caso, não adianta chorar o leite derramado.

Um conhecimento que precisa ser aprimorado é a previsão do comportamento geral do tempo para cada safra. É necessário gerar mais ciência nesta área e adotar corretamente as tecnologias que suportam as investigações climatológicas. Antes do planejamento da safra, os produtores precisam ter informações seguras a respeito do comportamento da chuva. Sua intensidade e distribuição, principalmente. Probabilidade de ocorrência de fenômenos importantes como geadas, veranicos e enchentes. Por semelhante modo, o comportamento da temperatura. Água e temperatura são fundamentais para a agricultura.

O produtor precisa ter reservas financeiras para suportar as variações climáticas. Ter reservas é melhor que as perdas na tentativa mal sucedida de produzir. A frustração de safra tem um custo elevado. Seria mais interessante não plantar, reduzir a área plantada ou plantar outra cultura mais resistente, que perder todo o investimento feito. De igual modo, nossa safra deveria estar segurada contra fenômenos imprevisíveis. O Brasil precisa ter um estoque regulador mais robusto para regularizar a oferta das grandes commodities, garantido o abastecimento e evitando que outros países tomem nosso lugar.

Não podemos deixar de enfatizar que as técnicas de preservação da água e do solo devem ser priorizadas para nossa agricultura. Existe espaço suficiente para associar produção e preservação da natureza. Este tema não é conflituoso e sim complementar. A adoção das novas tecnologias de irrigação, adubação, controle de doenças e pragas permitem a condução mais sustentável de nossas lavouras. Ferramentas da biotecnologia que viabilizam a geração de cultivares mais resistentes e adaptadas aos desafios que estão postos.

A forma sustentável de produzir é aquela que, mesmo diante de toda abundância deste País tropical, está preparada para períodos de escassez. É necessário ter uma ação preventiva diante da adversidade, ao invés de lamentar o que poderia ser evitado.

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