É preciso planejar

Júlia Guerra, diretora de Agronegócios na JLT Specialty Brasil

Não há dúvidas sobre a importância do seguro rural para o agronegócio brasileiro, tanto que a proteção contra incertezas climáticas contratada pelos agricultores cresceu 233% entre 2011 e 2017, segundo a Confederação Nacional dos Seguros Privados (CNSeg). Ainda assim, essa modalidade responde por apenas 1,1% do mercado segurador, o que é muito pouco, especialmente quando olhamos para países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos. São várias as razões para essa discrepância, mas na base de tudo está a falta de planejamento agrícola.

Por envolver grandes riscos, o seguro rural é caro e requer subsídio governamental, uma característica nos principais países produtores. Para a safra deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento destinou R$ 384 milhões, arcando com parcela da contratação de 70 mil apólices por pouco mais de 40 mil produtores – quando o número de segurados já passou de 73 mil em 2014. Além do orçamento reduzido, agricultores e seguradoras sofrem com as incertezas geradas pelos atrasos nos pagamentos devido aos contingenciamentos de recursos da União.

Levantamento do custo histórico das renegociações de financiamentos agrícolas feitas pelo governo federal nos últimos 20 anos mostra um valor muitas vezes maior que seria a subvenção a partir da criação de uma política consistente de seguros agrícolas. Nos Estados Unidos, as coberturas são mais abrangentes e subsidiadas fortemente – uma das poucas ações do governo americano em que existe consenso entre democratas e republicanos.

A Farm Bill – nome popular da legislação que consolida em um único documento os programas de política agrícola norte-americanos – estipula um planejamento de cinco anos. São bilhões de dólares em seguro agrícola de renda e preços, fundo de catástrofe para formação técnica e outras ações. Não faz realmente o menor sentido ter um plano a cada ano, como ocorre no Brasil.

Outra diferença fundamental: os produtores americanos recebem subsídio para contratar seguro agrícola de até 95% da renda prevista para a safra, em caso de perdas por preços ou por adversidades climáticas.

Portanto, mais do que uma destinação de verba maior ou menor para a subvenção, quando se fala na proteção ao produtor, o que falta mesmo no Brasil é uma política consistente de seguros agrícolas. Afinal, não adianta aumentar o valor do subsídio sem planos futuros e sem saber como as seguradoras irão dividir esse valor entre os segurados.

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando necessariamente a opinião editorial do Portal Revista Safra

Publicidade

Publicidade