Arquivo/Carlos Costa

Duelo de modelos produtivos

Produções orgânica e tradicional disputam predileção do consumidor

Diene Batista*

Modelo produtivo que vai alimentar o mundo ou estratégia do varejo para vender produtos considerados mais saudáveis, sob a justificativa de dispensarem agrotóxicos? Defensivos que prejudicam o homem e o meio ambiente ou responsáveis por garantir alimentos à população crescente, sem exaurir o planeta dos seus recursos? A queda de braço entre o modelo orgânico e a produção agrícola tradicional e o modelo orgânico ganha novos capítulos, numa guerra de argumentos.

Em 1962, a bióloga e ecologista norte-americana Rachel Carson publicou a obra Primavera Silenciosa, considerada um marco para o despertar do ecologismo político. Ela questionou o sentido de uma sociedade que optou por travar uma guerra contra a vida ao utilizar defensivos. “Estamos correndo todo esse risco para quê? A população precisa decidir se deseja continuar no caminho atual, e só poderá fazê-lo quando estiver em plena posse dos fatos”, alertou, na publicação.

Defensores do modelo de produção alternativo, ao longo dos anos, denunciaram a ocultação ou justificativa dos males dos agrotóxicos. Mas, pouco a pouco, há uma espécie de contra-ataque em curso. No Brasil, por exemplo, o livro Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo (Editora Record), do jornalista Nicholas Vital, põe em xeque o discurso do orgânico, que na visão dele, é “uma história sempre contada pela metade.”

Creditando à “onda do politicamente correto” que coloca o agronegócio tradicional como “vilão” e o orgânico como “mocinho”, ele diz ainda que as empresas que produzem os pesticidas “nunca se preocuparam” em contar sua versão da história. “Elas não têm uma relação direta com os consumidores [de alimentos]. Também são fabricantes de sementes orgânicas de biopesticidas. O cliente deles, que é o agricultor, sabe da importância e não vai deixar de comprar [inseticida]”, compara.

Vital, que já cobriu o setor agro como repórter, diz que “falta informação” e que “acusações tradicionais” contra a agricultura tradicional podem ser facilmente explicadas pela ciência. Um exemplo é o título ostentado pelo Brasil de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. No País, diz ele, são produzidos 42 quilos de alimento por dólar investido. Nos Estados Unidos, 94 quilos e no Japão, apenas oito quilos. “Proporcionalmente, quem usa mais defensivo é o Japão”, argumenta.

Ele lembra que o Brasil faz três safras por ano. “No hemisfério Norte, são duas e a neve esteriliza o solo, faz o controle natural das pragas. Assim, tem uma necessidade menor de pesticidas”, avalia. Vital cita ainda a menor produtividade do orgânico, se comparado à do modelo tradicional, e o uso de produtos rudimentares, como esterco, que aumenta o risco de contaminação. “É uma história contada sempre pela metade. Há um interesse [do orgânico] em criar uma imagem, um vilão para vender o produto”, critica.

Na obra, o jornalista cita ainda pesquisa da Universidade de Stanford, da Califórnia, que analisou mais de 200 trabalhos científicos comparando, em termos nutricionais, os orgânicos com os alimentos produzidos de forma tradicional. Os estudos não identificaram nenhuma diferença significativa de nutrientes. “Enquanto as pessoas acham que tem diferença, estão vendendo produto [orgânico] mais caro. Quem ganha é o varejo, que lucra muito”, alfineta.

Evolução

O mercado orgânico do Brasil foi regulamentado apenas em 2011, mas sua produção já tem história. Há mais de duas décadas está presente nas atividades da agricultura familiar e da agroecologia brasileira. “Temos que apontar que o crescimento do mercado global, desde os anos 1990, vem se refletindo no mercado do Brasil”, analisa diretor do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), Ming Liu, informando que a perspectiva de crescimento para os próximos anos é de entre 15% a 25%, dependendo dos setores e segmentos.

Ele explica que, hoje, o nível de evolução de produtos industrializados e na agregação de valor aos produtos no Brasil já acompanha o global, porém em escala menor, por causa do número pequeno de empresas. “Somente a partir de 2010 é que pudemos notar uma maior agregação de valor aos produtos, na medida em que novas tecnologias, e novos empreendedores entraram no segmento”, relembra, citando a introdução de produtos lácteos processados e industrializados em 2008.

De acordo com Liu, produtos de origem animal, como carnes brancas e vermelhas, e produtos lácteos ainda têm mercado para se desenvolver. “Continuamos ano a ano a conhecer novos produtos. Hoje, o consumidor quer produtos seguros, saudáveis, minimamente processados e com menor número de ingredientes e insumos artificiais ou químicos. Ele busca ingredientes funcionais e inovadores”, comenta.

A primeira pesquisa de perfil de consumidor, realizada pela Organis, mostrou que 15% da população nacional consome produtos orgânicos. Outros 32%, embora não sejam consumidores do segmento, apontaram um interesse de consumir. O levantamento abrangeu nove cidades de quatro regiões. De acordo com os dados, o Sul é a que mais consome produtos orgânicos (34%), seguida do Centro-Oeste (21%), do Nordeste (15%) e do Sudeste (10%). Os produtos mais consumidos são verduras (63%), legumes (25%), frutas (25%) e cereais (12%).

O desafio do setor, diz o diretor da entidade, é tornar os preços mais acessíveis. “Este caminho tem sido feito. Comprovamos na pesquisa que quando a compra é realizada nas feiras, do produtor direto ao consumidor, o preço é menor. A de preços maiores e de produtos mais caros acaba refletindo nas lojas de varejo e supermercados. Toda a cadeia precisa trabalhar para criar condições favoráveis na questão de preços”, defende.

No Nordeste e no Centro-Oeste, as feiras atingem maior presença na comercialização de orgânicos, com 42% e 36%, respectivamente. No Sudeste, 22% dos entrevistados preferem esses locais para comprar orgânicos e no Sul, apenas 22%. Em todas as regiões, o supermercado ainda é o principal local de compra: 71% no Sul, 69% no Sudeste, 52% no Centro-Oeste e 53% no Nordeste.

Força do consumidor

Para Liu, da Organis, já não é mais possível falar sobre em lobby varejista ou da indústria para ditar ao consumidor final. Na opinião dele, “é o consumidor quem vai apontar o que as empresas vão oferecer e produzir”. O diretor da entidade cita as indústrias de alimentos, que têm diminuído a quantidade de sal e de açúcar nos seus produtos. Já as empresas de refrigerantes, explica, estão apostando nos chás, sucos de frutas naturais e bebidas funcionais como novas alternativas para não perderem mercado.

Ainda conforme Liu, empresas globais com presença também no Brasil estão optando pelo desenvolvimento da própria linha de orgânicos. “Elas teriam todas as condições de fazerem lobby contra ou minimizar a produção, mas já investiram ou continuam a investir milhões de dólares no segmento nas suas unidades no exterior e todas já possuem alguma marca ou produto orgânico no mercado”, analisa.

Entidades querem redução de agrotóxicos

 Dados compilados pelo Dossiê Abrasco – Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde, que está em sua segunda edição, mostram que cerca de 70% dos alimentos in natura consumidos no País estão contaminados por algum tipo de agrotóxico, sendo que desses, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 28% contém substâncias não autorizadas para uso no Brasil.

Junto com outras entidades, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) encabeça um movimento para reduzir o uso de agrotóxicos no Brasil. Em dezembro passado, elas lançaram o anteprojeto de lei que institui o Programa Nacional de Redução no Uso de Agrotóxicos (Pronara) e amplia as formas de controle social sobre os defensivos.A sugestão foi transformada no Projeto de Lei 6670/2016, em trâmite na Câmara dos Deputados. A proposta contém mais de 100 medidas para reduzir o uso de agrotóxicos nos setores da agricultura, pecuária, extrativista e em práticas de manejo dos recursos naturais. O projeto prevê medidas de apoio econômico e financeiro, para fortalecer os segmentos produtivos de insumos limpos, agroecológicos, orgânicos e de controle biológico. Por outro lado, determina a eliminação de subsídios, isenções e outros estímulos econômicos, financeiros, tributários e fiscais aplicáveis na importação e comercialização de agrotóxicos.

Selo garante credibilidade

Com a Lei de Orgânicos, instituída em 2011, o uso do Selo Sisorg, identificando o produto como orgânico, passou a ser obrigatório. Diretor do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), Ming Liu, explica que essa obrigatoriedade garante as normas, procedimentos e a credibilidade do produto para o consumidor, estabelecendo diretrizes a serem seguidas pelo produtor e processador.

Segundo o diretor da entidade, o maior desafio, hoje, é esclarecer ao consumidor final as modalidades de identificação do produto.  Na pesquisa sobre perfil do consumidor realizada pela Organis, pouco mais de 50% dos consumidores enxergaram ou reconheceram o selo. “Grande parte ainda segue ou compra o produto orgânico pela informação do atendente ou do vendedor no ponto de venda”, explica. Ainda segundo o levantamento, pouco mais de 60% dos entrevistados sabiam da obrigatoriedade do selo.

O Sisorg é aplicado em três casos. Todos os produtores e produtos certificados por auditoria, por meio de certificadoras privadas homologadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), têm a obrigatoriedade de utilizá-lo nas embalagens dos produtos com a denominação “Produtor orgânico por auditoria”, ao lado do selo. A grande maioria dos produtos in natura e industrializados que pode ser exportada utiliza deste sistema de conformidade por auditoria para a certificação.

A segunda forma de certificação se dá pelos organismos participativos Sistemas Participativos de Garantia (SPG), ou seja, grupo de produtores devidamente registrados e fiscalizados pelo Mapa. Nesse caso, o selo aparece com a denominação “Produto orgânico por sistema participativo”. No terceiro caso – Organismos de Controle Social (OCS) – o selo não aparece de forma direta. A modalidade envolve o registro direto dos pequenos produtores junto ao Ministério da Agricultura, que vendem seus produtos em feiras orgânicas.

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de outubro da Revista Safra, a partir da página 35.

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