De volta às raízes

Tubérculos e cereais integrais conquistam mais espaço na mesa dos brasileiros e também na produção no campo

Thaís Lobo*

A busca por uma vida mais saudável está abrindo uma nova fatia no mercado para muitos produtos alimentícios. Tubérculos como a batata-doce e os cereais integrais estão cada vez mais presentes no prato do dia a dia da população brasileira e a expectativa é de crescimento e consolidação do espaço desses alimentos também no campo.

Pesquisa da consultoria Euromonitor aponta que o Brasil é o quinto maior mercado de alimentos e bebidas saudáveis no mundo, com um volume de vendas de 27,5 bilhões de dólares em 2015. Em cinco anos, entre 2010 e 2015, o crescimento brasileiro foi de 44%, quase o triplo da média mundial, que é 15%.

Para a Supervisora de Desenvolvimento Social da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), Janete Rocha, o crescimento do mercado da alimentação saudável não é mais tendência e sim uma realidade. “Cada vez mais as pessoas buscam essa alimentação saudável que, na verdade, é uma volta às raízes. É um retorno ao tempo dos nossos avôs e bisavôs que se alimentavam de muitas raízes, tubérculos e dessa alimentação integral”, afirma.

Além do aumento da procura do consumidor, a inserção de novas tecnologias e manejos fez com que a produção desses alimentos saltasse. “O produtor tem investido mais em tecnologia e tem conseguido ser mais produtivo. O produto também tem elevado o preço e esse aquecimento no mercado gera aumento de produtividade, porque o produtor vai investir mais para garantir a produção”, explica o técnico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Carlos Alfredo Barreto Guedes.

A produtividade da batata-doce, por exemplo, aumentou 179% em dez anos, passando de R$ 209,3 milhões em 2005, para R$ 585, 6 milhões em 2015 (veja gráfico). Segundo o produtor rural Sérgio Sanches de Melo, que cultiva o tubérculo há 20 anos em Leopoldo de Bulhões, município no interior de Goiás, a procura pelo produto aumentou, assim como os desafios da sua produção. “Antigamente o pessoal plantava no quintal, igual mandioca, mas hoje em dia como o mercado se profissionalizou, apareceram pragas e doenças, e a gente tem que se adaptar. Hoje não está aquele cultivo fácil de dez anos atrás”, lamenta.

Melo conta que planta a batata-doce em área irrigada e ainda aplica herbicidas, fungicidas e inseticidas para o controle das pragas. O tubérculo também divide espaço com outras culturas na fazenda, como a cenoura, beterraba, milho e soja. “Mas é uma área pequena, porque o consumo ainda não é tão grande de batata-doce”, argumenta o produtor, que acrescenta que ele faz uma diversificação estratégica das culturas para evitar prejuízos. “Às vezes a gente empata em uma [cultura], e ganha em outra. É uma forma de, no final do ano, estar com as contas equilibradas”.

A supervisora da Emater destaca que a batata-doce ainda é um nicho pequeno no campo, e geralmente são produzidas em pequenas propriedades ou dividindo espaço com outras culturas. Mas, com o aquecimento no mercado consumidor, ela tem ganhado cada vez mais a atenção dos produtores. “São produtos que estão sendo redescobertos, então a tendência é crescer assim como aconteceu com a mandioca, que há um tempo não tinha tantas fábricas, tantos subprodutos e derivados. Acho que a batata-doce vai trilhar esse caminho e logo vão aparecer grandes produtores”, avalia Janete.

Aveia

Outro alimento que vem ganhando destaque na alimentação do brasileiro é a aveia que, assim como a batata-doce, é um carboidrato que ajuda no ganho de massa muscular e na manutenção do peso. Dados do IBGE mostram que a produção de aveia em grão no País aumentou 71,4%, passando de 504,9 toneladas em 2015 para 865,6 toneladas em 2016.

Mesmo com os bons resultados apresentados nos últimos anos, a estimativa da produção da aveia e da cevada é de queda de 11% e 20%, respectivamente. O técnico do IBGE explica que o número baixo se deve ao recorde da produção do ano passado, que elevou os números de comparação, e o fato de que as sementes são plantadas apenas no final do primeiro semestre do ano e, dependendo do clima, o produtor pode aumentar ou manter a expectativa de produção.

Carlos Alfredo Barreto Guedes, do IBGE, ressalta ainda que os cereais integrais de inverno, como a aveia e a cevada, são muito dependentes do fator climático. “O ano de 2016 foi recorde de produção [de aveia]. Se o clima for bom como foi do ano passado, nós podemos até aumentar a estimativa de produção este ano”, pondera.

Cevada

David Oliveira, gerente de Marketing da Superbom, marca brasileira de produtos saudáveis que atua há 92 anos no mercado, afirma que a alimentação é um dos itens de grande preocupação do consumidor e que influenciou a sua mudança de postura. Para ilustrar a diferença do hábito dos brasileiros, ele conta que, nos últimos seis anos, a empresa dobrou de tamanho.

A marca, que tem produtos vegetarianos e veganos como carro-chefe, também tem se destacado no mercado por oferecer cevada torrada, um produto ainda pouco conhecido pelos brasileiros. O grão, conta David, pode ser preparado e consumido como um substituto do café. “A cevada tem as mesmas características do café, embora ela não tenha essa questão de fazer você perder o sono, de deixar você ligado. O sabor do café de cevada também não é distante do café tradicional, ele é um pouco mais fraco que o café tradicional, mas as pessoas conseguem rapidamente fazer a mudança de paladar”, garante ele.

Outra vantagem da cevada, ainda segundo o gerente de marketing, é o preço, que é inferior ao do café tradicional em algumas Regiões do País. “No Norte e Nordeste o pessoal faz a substituição não só pela saudabilidade, mas também pelo aspecto financeiro”, finaliza Oliveira.

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*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de maio da Revista Safra, a partir da página 22.

Foto: Carlos Costa

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