Carlos Costa

De ponta a ponta

Do nível técnico ao especializado, o agronegócio aumenta a exigência de formação e vê postos ligados à agroecologia com perspectiva de crescimento

Diene Batista*

A tecnologia afetou de ponta a ponta a cadeia do agronegócio: da pesquisa para a produção de grãos ao trabalho com maquinário. O resultado é um meio de trabalho mais exigente, em todos os níveis, como analisa a gerente sênior da Robert Half, Maria Sartori. “Esse é o mercado que vem sendo mais afetado em relação à tecnologia, ao nível e à capacitação dos profissionais”, aponta.

Na última década, por exemplo, surgiu a figura do breedes, geneticista que atua em laboratórios analisando grãos para melhorar a produtividade. “Há uma maior demanda em relação à academia e ao aprofundamento dos estudos, em mestrados, doutorados e até pós-doutorados. Cresce também a exigência em relação aos conhecimentos em língua inglesa”, explica ela.

Diante de gargalos históricos que o setor enfrenta – como os relacionados à logística – e das inúmeras possibilidades proporcionadas pela tecnologia, quem trabalha no setor precisa exercitar a flexibilidade. “Como lidar com um ambiente que não se desenvolveu totalmente, mas está vindo numa velocidade de mudança muito forte? É um profissional que tem que lidar com tudo que vem dos anos anteriores, a falta de tecnologia, principalmente para quem está nos estados de produção do Centro-Norte”, considera.

A pós-graduação foi o caminho tomado pelo gestor público em Tecnologia da Informação e produtor goiano Victor Ribeiro, 33. Graduado em Ciências da Computação, fez mestrado em Informática, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), para melhorar sua atuação como criador. Ele atua como confinador e no comércio de animais vivos e de carne no atacado, principalmente da raça nelore, criados em três propriedades alugadas nas proximidades de Goiânia.

Em Santa Cruz de Goiás, há oito meses, ele aposta na produção de leite e de queijos, além de na criação de pequenos animais, como peixes e galinhas. No mestrado, ele pesquisou sobre redes de sensores sem fio para o monitoramento de interceptação luminosa em pastagens, que tornava possível controlar o melhor momento para a colheita do capim. “Trabalhar com gado não se restringe ao animal. O produtor também se torna um lavourista, pois precisa produzir para alimentar seu rebanho. Colhido no ponto certo, o capim tem maior concentração de energia e de proteína”, afirma.

Três anos depois de apresentar a dissertação na universidade, Ribeiro avalia que o aprofundamento em sua formação deu a ele uma nova visão sobre a atividade no campo. “O trabalho (no campo) pode ser aprimorado por meio da tecnologia. Podemos mudar a forma de fazer as coisas no campo, por mais que isso seja feito do mesmo jeito, há muitos anos”, pondera ele, que agora vai se dedicar a aprimorar a propriedade em Santa Cruz de Goiás.

Quadro técnico

Além da demanda por profissionais com pós-graduação, a injeção forte de capital para o desenvolvimento de maquinário cria oportunidades para quem possui conhecimentos específicos. “É um trabalho que não pede formação acadêmica superior, mas uma formação técnica que antigamente não exigia”, aponta a gerente da Robert Half.

O técnico em mecânica João Vitor da Silva Lima, 19, sentiu na prática a necessidade de qualificação. Natural de Rio Verde, no sudoeste de Goiás, ele estava desempregado há oito meses. No currículo, a experiência do estágio em um frigorífico e três cursos. Pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai),  se qualificou como técnico em mecânica industrial, de qualificação e de manutenção de motores a diesel.

Recentemente, na opinião dele graças às formações, conseguiu trabalho como auxiliar ferramental em uma concessionária de máquinas, também em Rio Verde. “Conhecer a máquina, que está cada vez mais moderna, é muito importante”, diz ele, que está em seu quarto curso – o de técnico agrícola – e já planeja cursar faculdade de agronomia.

Perspectiva agroecológica

O desenvolvimento tecnológico no campo apresenta diferentes perspectivas para a agricultura e para o mundo rural. Se de um lado algumas tecnologias são vistas com desconfiança, como os organismos geneticamente modificados, as tecnologias agroecológicas são consideradas promissoras, como explica o pesquisador Paulo Moruzzi, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

Segundo ele, essas tendências respondem às demandas por alimentos de qualidade superior e por produção com reduzido impacto ambiental. “Assim, cresce a oferta, por exemplo, de cursos de formação em agroecologia. As tendências apontam, portanto para o crescimento da procura de profissionais capazes de atuarem com esta perspectiva agroecológica”, analisa.

Na esteira dessa tendência, explica Moruzzi, os profissionais do campo agropecuário precisam estar cada vez mais atentos às inovações produtivas com cunho agroecológico. “A atuação com um olhar agroecológico pressupõe uma grande sensibilidade para uma abordagem multidisciplinar”, define, explicando que o interesse por essa área se associa a uma visão multifuncional da agricultura e a uma aspiração ao “renascimento rural”.

Neste rural renovado, diferentes profissionais podem atuar, como em atividades turísticas e nas que se referem à oferta de alimentos saudáveis, visando o incremento do consumo de frutas, legumes e verduras, minimamente processados, e de alimentos produzidos organicamente. “É possível pensar nas tendências que devem cada vez mais conformar os contornos do perfil profissional daqueles que atuam no setor agroalimentar”, afirma.

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de outubro da Revista Safra, a partir da página 8.

Publicidade

Publicidade