De pioneiro a sobrevivente

Apesar das crises e escândalos no setor, empresário transformou criação de avestruz em referência mundial e é exemplo da retomada dessa atividade no País

Fernanda Nascimento Prochmann*

O ano era 1995. Em São Gabriel do Oeste, uma cidadezinha no interior de Mato Grosso do Sul conhecida por receber investidores sulistas, Manoel Piveta Assunção deu início a estruturação para criação de animais até então pouco conhecidos no Brasil, os avestruzes. Um ano depois, chegaram os primeiros 20 exemplares vindos da África e a partir daí deu-se o andamento da atividade de estrutiocultura na fazenda Piveta Assunção. “Olhamos para um mundo mais moderno, para uma situação onde, com menos área, menos pisoteio, menos agressão ao meio ambiente, a gente produz muito mais. E o que produz mais, produz com excepcional qualidade. Somos hoje o mais moderno e um dos três maiores do mundo, sendo que, com certeza, o maior fora do continente africano”, conta o empresário orgulhoso.

Com uma estrutura estimada em 20 milhões de dólares e um plantel de 5 mil aves entre reprodutores, aves em crescimento e para abate,ao longo dos anos Manoel Piveta driblou situações que indicavam o fim da atividade no País, como o escândalo do Grupo Avestruz Master, em Goiás, onde vários empresários foram enganados com a promessa de lucros altos em curto prazo, em 2005. Segundo João Carlos Machado, ex-diretor da Associação dos Criadores de Avestruzes do Brasil (ACAB) e ex-criador de avestruz no Rio Grande do Sul, o escândalo acabou com tudo. “A associação não existe mais, os criadouros não existem mais, não há produção em escala industrial. E olha que, em 2004, eram 500 mil animais no Brasil”, lembra Machado. O ex-investidor conta que o Estado do Rio Grande do Sul era muito forte na atividade e hoje não sobrou nenhum criador. “São raríssimos os que sobreviveram”, diz.

O próprio Piveta cita os poucos criadores com expressão no cenário brasileiro, um deles, inclusive, estava prestes a desistir da atividade quando visitou a propriedade em São Gabriel do Oeste. “‘Seo’ Antenor, de Sobral, no Ceará, me disse que suas aves deixaram de fazer postura por mais de um ano, mas após sua visita ao nosso criatório este ano, ficou incentivado e suas 140 aves voltarão a fazer a postura. Ele já tem mais de 100 ovos na incubadora”, conta. Outro criador ainda em atividade está em Belo Horizonte, com 75 casais de avestruzes, e há um pequeno criatório na região de Marília, em São Paulo, com uma centena de aves.

A permanência no mercado, Piveta chama de teimosia. “Foi muito complexo, um momento muito difícil. Nós não tínhamos nada com aquilo lá [escândalo da Avestruz Master], nenhum investimento com aquilo lá. Mas perdemos, tivemos que investir sem ter receita R$1 milhão por ano por quatro, cinco anos, para resolver esse problema. Tínhamos uma cadeia que produzia animais para a formação de um plantel no Brasil, com aquilo, não houve mais absorção. Daquele dia em diante não se falou mais em vender filhote. E não tínhamos o mercado do couro, da pluma, do osso, da carne”.

Mercado

E foi justamente esse novo mercado que Piveta conseguiu vislumbrar. Hoje, não é da carne de avestruz que vem o maior faturamento da empresa. Oproduto com maior valor agregado, chegando até a puxar a venda da carne, é a gordura, sendo utilizada em cosméticos como ingrediente nobre para defesa e proteção da pele. “É um crescimento exponencial. No mercado um vidrinho de 35 mililitrosé vendido por R$45. Para conseguir aumentar a produção de gordura, mudamos um pouco a alimentação dos animais, demos mais energia nos últimos meses e conseguimos, aproximadamente, 20 quilos de banha por avestruz”, explica o empresário. Diferentemente do boi, por exemplo, a gordura do avestruz é localizada, fica no peito do animal, onde não tem carne, apenas o fígado e coração. A banha não fica entremeada, marmorada, por isso a condição mais saudável da carne exótica.O óleo de avestruz possui alto poder de hidratação, absorção e revitalização cutânea, também pode ser utilizado como cicatrizante e anti-inflamatório. Rico em ácidos graxos essenciais, principalmente o ácido oleico, ácido linoleico e ômegas 9, 6 e 3; além de possuir as vitaminas E e D.

E do avestruz, tudo se aproveita. As plumas, por exemplo, seguem para as indústrias automobilística, do carnaval e da confecção. O desplume ocorre a cada seis meses, feita por profissionais que colhem apenas as plumas secas e maduras, sem causar sofrimento para a ave. Aproximadamente 80% das plumas do dorso do avestruz têm como destino as indústrias de espanadores; os 20% restantes vêm das asas e são consideradas de maior qualidade. A pele é extremamente resistente e muito macia, o mercado brasileiro absorve bem e já houve exportação para o Canadá e México. O couro é facilmente tingido e muito usado na confecção de sapatos, cintos, bolsas, carteiras, roupas, pastas e estofados. Uma ave de 14 meses produz cerca de 1,5 metro quadrado de couro. Já os ossos são usados os da canela e do fêmur, sendo a principal aplicação em artesanato como cabos de faca artesanais. As demais partes são processadas e transformadas em farinha de osso usada como suplemento de ração animal. E os ovos são encaminhados para artesanato quando não fecundados. Depois de eclodirem, rendem cacos da casca que são absorvidos também pela indústria de cosméticos, que os processam, moendo para produzir esfoliante.

“No caso da carne, nossos maiores mercados são Minas Gerais, Brasília, Rio de Janeiro, o Nordeste, mesmo com certa dificuldade com a logística, e o Sul do País. Vendemos para grandes redes, principalmente o Carrefour”, diz. Um animal produz, aproximadamente, 30 quilos de carne sem osso, 5 quilos de carne com osso, vendidos a um preço médio de R$ 35 o quilo, que equivale a dois quintos do preço auferido pela ave.

Quanto à exportação, o empresário explica que trabalha nisso desde 2010. “Dependemos do Ministério da Agricultura, de um Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC) que é bastante exigente, já mandamos centenas de amostras para laboratório, inclusive oficial, e estamos buscando esse plano para que possamos exportar para países especialmente como a Suíça, onde até o cônsul geral já esteve visitando, não só o nosso frigorífico, como nossa criação. Então, estamos só esperando para vender”.

Para fechar a cadeia de produção do avestruz, Piveta adquiriu um frigorífico em Campo Grande, capital do Estado. A estrutura, direcionada para abate de ovinos, foi adaptada para caprinos e avestruzes, com viés para o avestruz. Com produção de abate de 3 mil animais por ano, a projeção é chegar a 10 mil em pouco tempo. “No Brasil, se somarem os demais produtores não chegam a metade de nosso plantel, que era para ser maior ainda”. Piveta se refere à duplicação de uma rodovia que passa por dentro da propriedade, consequentemente por dentro do criatório, e que acaba estressando os animais e já provocou um retrocesso do rebanho.

Curiosidades sobre a ave**

O avestruz (Struthiocamelus) é a maior ave do planeta e tem como habitat natural as regiões leste e sul da África. São aves corredoras (atingem até 60 quilômetros/hora), incapazes de voar. Quando adulto, atinge a altura de 2,00 a 2,70 metros e pesam entre 90 a 160 quilos. A vida reprodutiva das fêmeas tem início aos 24 meses e a dos machos a partir dos 30 meses, durando aproximadamente 40 anos. São aves de vida longa, aproximadamente 70 anos. A estação reprodutiva dura em média seis a sete meses, sendo que no Brasil este período ocorre entre os meses de agosto a fevereiro. Uma fêmea produz em média 15 a 20 filhotes por ano. Os ovos que medem entre 15 e 20 centímetros e pesam entre 1 e 1,5 quilo, equivalem a 25 ovos de galinha.

Fonte: Universidade de São Paulo**

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de outubro da Revista Safra, a partir da página 42.

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