Carlos Costa

Campo próspero, comércio aquecido

Em ano de safra recorde, ganhos na agropecuária influenciam nos resultados de vendas e prestação de serviços nas cidades

Fernando Dantas*

As incertezas políticas e econômicas no Brasil resultaram em estatísticas negativas, que não têm perdoado quase nenhum setor da economia brasileira nos últimos anos. Em 2016, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro registrou retração de 3,6% em relação a 2015, recebendo o título de um dos piores anos de recessão do País. O reflexo disso a população sente na ‘pele’, com desemprego chegando a 13,5 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de toda uma reação em cadeia, com queda nas vendas, falência de empresas, entre outros.

Entretanto, no primeiro trimestre deste ano, houve uma ‘ligeira’ recuperação no PIB brasileiro, que voltou a crescer após oito trimestres seguidos de queda, alcançando 1,0% de crescimento. Existe um setor que vem contribuindo, desde o final de 2016, para esse início de recuperação da economia brasileira: o agronegócio. A agricultura e a pecuária foram responsáveis, juntas, pela abertura de 117.013 postos de trabalho no primeiro semestre deste ano, de acordo com dados do Ministério do Trabalho.

Outro número que mostra a força do setor está relacionado à safra de grãos 2016/2017, que deve alcançar 238,7 milhões de toneladas – aumento de 27,9% em relação à safra anterior. Esses dados revelam safra recorde para o Brasil e a importância da agropecuária para a economia. “Independente da situação do País, o setor está focado na produção. A agricultura ajudou no choque de ofertas de alimentos para baixar a inflação. O agronegócio é o lado do Brasil que está crescendo e dando certo. O nosso país irá se recuperar por meio do PIB agrícola”, afirma o presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), João Carlos Marchesan.

Com a agropecuária contribuindo para a recuperação da economia, não só o setor é impactado de forma positiva, mas diversos outros segmentos que estão ligados direta e indiretamente com os bons resultados do campo. É o caso de empresas das áreas de comércio e serviços, como revenda de máquinas e implementos agrícolas, de insumo e defensivos, de produtos agropecuários, de caminhões e veículos, de consultoria em agricultura de precisão e até de comercialização de botas, fivelas e cintos. Esse mercado sofreu sim com a crise econômica e dúvidas na política, mas já tem comemorado a ampliação nas vendas e na prestação de serviços, exatamente pelos ‘bons ventos’ que sopram para o setor agrícola e pecuário.

Em Goiás, é só percorrer o interior do estado, inclusive à beira de rodovias, para ver que são várias as empresas voltadas para o meio agropecuário. Em Goiânia isso também acontece. Bairros como Campinas, Aeroviário e Rodoviário concentram diversas lojas especializadas do setor e dependem de uma agropecuária forte, lucrando, para ter bons resultados.

De acordo com João Carlos Marchesan, o setor de máquinas e implementos agrícolas – que hoje é responsável por várias das empresas do comércio agropecuário espalhadas pelo Estado – deve ter crescimento nominal no faturamento maior que o registrado em 2016. “O faturamento do setor no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, cresceu 16%, fruto da excelente safra de verão colhida no início do ano”, afirma. Ele reforça que o segmento pode se tornar ainda mais competitivo se atualizar o parque industrial, que hoje está defasado, com máquinas com dez a 15 anos de uso, e para isso ocorrer é necessário investimento. “Estamos em um ano virtuoso, colhendo uma supersafra. O agricultor está mais confiante e quer investir novamente. A demanda não está ruim e o setor vai crescer. Os preços estão bons e se melhorar o valor do dólar, ficará mais competitivo para o agricultor”, enfatiza.

Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram também valores positivos para a área de máquinas agrícolas – tratores, colheitadeiras, retroescavadeiras, etc -, com aumento nas vendas de 28,7% entre janeiro e maio deste ano, se comparado ao mesmo período de 2016. A quantidade de unidades comercializadas saltou de 13,4 mil para 17,3 mil. Em relação à produção, de janeiro a maio foram feitas 24.072 unidades, sendo que em 2016 o número, para o mesmo intervalo de meses, foi de 15.817.

No comércio

O diretor da Koveza Agrícola, Davidson Mauriz, também concorda que as incertezas políticas não deixaram de incomodar o setor, mas que o agronegócio – e não só a agropecuária – é mais forte que isto. “Os maiores resultados de superavit e contratações, recentemente divulgados, comprovam o bom momento do segmento”, afirma. De acordo com ele, enquanto em 2016 houve sérios problemas climáticos, como falta de chuvas, que interferiram negativamente no resultado da safra e que causaram quase que a perda total da safrinha; em 2017, principalmente na safra 2016/2017, ocorreu boa divisão pluviométrica, que trouxe superprodução. “Em um mercado globalizado, uma supersafra brasileira impacta positivamente se houver demanda/procura externa pelos produtos, visto que os preços das commodities são puxados por esta demanda, trazendo assim, poder de compra para nossos produtores e, consequentemente, aquecimento do nosso mercado”, afirma.

Mauriz acredita que a Koveza Agrícola deve registrar, até o final do ano, um acréscimo de 25% no resultado dos negócios, em relação a 2016. A empresa, localizada no setor Rodoviário, em Goiânia, atua na venda de peças para máquinas John Deere, equipamentos para agricultura de precisão – GPS, drone, piloto automático – e implementos multimarcas. Ele sinaliza que o atual cenário de investimento ainda é para quem busca manter o que tem, ou seja, aquisição de peças de manutenção dos antigos, do que quem quer fazer novas aquisições. “O aumento nas nossas vendas, por exemplo, tem sido mais pelo represamento da demanda, pelo produtor não ter mais como esperar para investir”, reforça.

Já a Planalto Tratores estima crescimento nas vendas de 20%, em relação ao ano de 2016, segundo o diretor comercial da empresa, Marco Elisio Nunes Cunha. Entre os produtos mais comercializados neste ano pela empresa, revendedora da marca Valtra em Goiânia, estão tratores. Para ele, o agronegócio como um todo é o único segmento que está crescendo no País e os fatores internos para isso – da porteira para dentro – não dependem da política e economia. “Mas sim da capacidade e eficiência individual que gera produtividade e resultados ao empresário rural. A supersafra provoca maior volume de movimentos positivos na economia de um modo geral e mesmo com preços inferiores a outras safras, compensa com o aumento da produtividade. Maior produtividade requer mais máquinas para colher, aumento na venda de tecnologia, consequentemente maior necessidade e capacidade de investimentos”, analisa.

Sem tirar o pé do freio

O segmento de caminhões no Brasil sofreu com as interferências políticas e econômicas dos últimos anos, assim como foi atingido por problemas ligados ao aumento dos preços de combustíveis e de pneus, frete defasado, linhas de crédito mais exigentes para aprovação, falta de subsídio do governo para renovação da frota e más condições de estradas estaduais e federais, que exigiram manutenções prematuras nos veículos. Apesar de tudo isso, o comércio neste segmento não tem se deixado ‘abalar’ e busca se recuperar, motivados pelos números expressivos do agronegócio. Quem confirma isso é o gerente administrativo e financeiro da Casa Scania Varella, Luiz Maia.

De acordo com ele, na atual situação do País, os clientes estão mais exigentes, buscando a melhor relação custo/benefício, e as empresas precisam apresentar diferenciais de mercado. “A equipe da Scania, por exemplo, arregaçou as mangas e especialmente em momentos de dificuldades econômicas mostra que é parceira do cliente. Continuamos estreitando o relacionamento com os clientes, tanto com vendas de caminhões como no pós-vendas. Temos por filosofia valorizar e investir muito nos serviços. Os Serviços Conectados Scania são soluções tecnológicas e inovadoras para os clientes fazerem a gestão da frota mais inteligente, usando os dados produzidos pelos veículos no trabalho e, assim, conquistando mais rentabilidade”, relata.

No caso de Goiás, Maia relata que a Scania tem alcançado resultados positivos porque o Estado é o segundo mercado nacional de usinas sucroalcooleiras, o que gera uma demanda crescente de caminhões fora de estrada com configurações de rodas 6×4 e 8×4. Entre os produtos que têm surpreendido em vendas, inclusive nas revendas da Scania em Goiás, estão caminhão pesado G 400 6×4, que possui cavalo mecânico off-road para o setor canavieiro, e o rodoviário R 440 6×4, voltado para o escoamento da produção.

Segundo o ranking da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), foram emplacadas, de janeiro a junho deste ano, 1.043 unidades do caminhão R 440 em todo o Brasil. Neste mesmo período de 2017, a Scania fechou acumulado de 84% de acréscimo de vendas no mercado em que atua, acima de oito toneladas.

Com forte presença no mercado agropecuário, a Toyota do Brasil também alcançou bons resultados no primeiro semestre deste ano, impulsionada parte pelo atual momento do agronegócio. Com 87.779 unidades negociadas, a fabricante superou em 2,7% os números registrados no mesmo período de 2016, quando registrou a venda de 85.457 veículos. Durante a Agrishow deste ano, realizada em Ribeirão Preto (SP), a Toyota comercializou 208 veículos, obtendo volume 108% maior do que o esperado, que girava em 100 unidades. O destaque ficou para a picape Hillux, com 173 negócios fechados na feira.

A maior demanda no setor agropecuário reflete ainda na maior disponibilidade de crédito. “Estamos nos embasando no Plano Safra 2017/2018, que reduziu a taxa de juros, de 8,5% para 7,5%, para o produtor com renda anual de até R$ 90 milhões, e o aumento de R$ 9,2 bilhões para o financiamento pelo Moderfrota, o que representa o incremento de 82,2%. Diante deste cenário, temos certeza de que o Brasil vai retardar a queda do crescimento em função do bom desempenho do agronegócio. O agricultor continua crescendo e investindo”, diz afirma o presidente do Conselho de Administração da Abimaq, João Carlos Marchesan.

Expectativa de “nova aceleração”

 O ‘vai e vem de incertezas’ na política e as recorrentes situações negativas ligadas à pecuária brasileira, como Operação Carne Fraca, escândalos envolvendo o governo federal e JBS, entre outros, deixaram o agropecuarista mais cauteloso na hora do consumo, mas não cessaram as vendas no comércio ligado ao setor. É esta a avaliação de Anangela Castro, gerente comercial da Casa do Rodeio, empresa goiana de comércio varejista de equipamentos de selaria para lida e prática esportiva e moda country. “Em 2016, tivemos um ano difícil. Mês a mês, lutamos para alcançar as metas, mas, em muitas ocasiões, trabalhamos para empatar. Este ano, apesar de um início difícil e incerto, é possível sentir o princípio de uma nova aceleração”, diz.

Localizada no setor Campinas, tradicional região de venda de produtos agropecuários na capital goiana, a empresa registrou média de 6,8% de aumento nas vendas por mês nos seis primeiros meses do ano, o que contribuirá para um resultado positivo no primeiro semestre. “Não podemos dizer exatamente que o resultado das vendas advém da supersafra ou do conjunto das atividades agropecuárias, mas desde abril deste ano, podemos identificar uma melhora nos resultados em relação a 2016, com picos superiores em maio e junho”, destaca.

Anangela lista que o mix de calçados – botas e botinas – é responsável por 35% das vendas da loja, com destaque para marcas de equipamento de trabalho e esporte; seguido pelo mix de selaria. “As vendas da loja são mais expressivas entre os meses de março e setembro, já que o período de seca concentra eventos agropecuários, feiras, cavalgadas, congressos e grandes leilões no Estado de Goiás e outros vizinhos. Destaque também para o mês de janeiro, quando há grande procura da clientela para renovação de equipamentos de esporte e trabalho”, informa. Ela acrescenta ainda que os clientes da Casa do Rodeio estão direta ou indiretamente ligados ao agronegócio ou têm afinidade com o chamado universo country-sertanejo. “Apesar de hoje, na sua maioria urbanos, os clientes cultuam as raízes do campo e suas tradições, seja pela influência familiar ou simplesmente pela afinidade com a música, festas e esportes equestres”, pondera.

Aproveitar o momento

Enquanto alguns lamentam a situação, outros buscam oportunidades de investir em uma atividade ou mesmo de melhorar os negócios. É assim com os empreendedores Gustavo Morais e Renato Santos, sócios proprietários da Hover Drone Br. A empresa atua na área de agricultura de precisão e de serviços de mapeamento aéreo com drone, monitoramento de lavouras e plantações, captação de falha em plantações, contagem de mudas e árvores, imagens georreferenciadas, contagem de rebanho, topografia, entre outros.

De acordo com eles, o período de instabilidade política tem influenciado no mercado e estimulado a busca por técnicas que possuam bom rendimento a um baixo-custo. “A necessidade de monitoramento das plantações é constante, o que tem aumentado a busca por serviços prestados por empresas como a nossa, que oferecem resultados satisfatórios com a vantagem de reduzir os gastos que o produtor costuma ter com as técnicas tradicionais”, cita Renato Santos.

Ele destaca que em situações de crise, produtores, agricultores e profissionais do campo tendem a buscar na inovação e em técnicas diferenciadas oportunidades para melhorar a produtividade e rendimento de suas atividades. “É o caso da agricultura de precisão. Um dos pontos que auxiliam no aumento da produção da safra é o uso de técnicas modernas que possibilitem ao produtor maior controle sobre suas plantações”, informa. Por oferecer esse diferencial na área de serviços, Santos garante que a procura e o interesse pelos serviços da empresa, que é sediada em Goiânia, cresceram e houve aumento, considerável, de clientes. “Acreditamos que esse aumento tende a continuar à medida que o custo-benefício da prática de monitoramento seja disseminado entre agricultores”, revela.

Aquisição de insumos

O produtor sabe bem que qualquer interferência na política e economia do País tem reflexos nos preços voltados para o agronegócio. Isso porque boa parte do que é comercializado na agricultura e pecuária é feita em dólar. E as variações de câmbio podem jogar os preços lá para cima ou para baixo. Segundo o presidente executivo da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), Henrique Mazotini, em 2016 e 2017 a situação política influenciou na valorização ou desvalorização do real frente ao dólar, e isso fez com que o produtor demorasse vender sua produção – esperando uma melhor remuneração. “Ele acompanhou toda essa movimentação e entendeu que poderia ganhar recursos a mais com a valorização do dólar. Então, isso fez com que o agricultor segurasse um pouco mais a comercialização do resultado de sua safra e assim, também demorou a tomar a atitude de compra de insumos para a próxima safra”, alerta.

Ele cita que até julho, dependendo da região, apenas 30% a 50% dos negócios relativos à venda de insumos para a safra 2017/2018 tinham sido fechados. No ano passado, diz Mazotini, nesse mesmo período, as negociações desses itens alcançavam 70%.

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de outubro da Revista Safra, a partir da página 13.

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