Carlos Costa

Ampla cobertura no campo

Aliado na difusão do seguro rural, as companhias resseguradoras oferecem suporte para o pagamento de indenizações

Carlos Alberto Pacheco*

Um extenso leque de oportunidades de negócios se descortina no âmbito do seguro rural. O fato deste mecanismo de proteção no campo crescer exponencialmente – dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), autarquia que fiscaliza e regulamenta o setor, subordinada ao Ministério da Fazenda, apontam uma expansão de mais de 1000% entre 2006 a 2016 – consolida o papel das resseguradoras, empresas que assumem a maior parte do risco das seguradoras, no cenário atual.

Numa conceituação simples, o resseguro pode ser definido como o seguro do seguro. Trata-se de uma forma de oferecer suportes às seguradoras para que estas possam arcar com as indenizações. No total, foram reparados danos de R$ 93 bilhões em 2015, um crescimento de 6% em relação a 2014. Na definição clássica, o resseguro é um contrato por meio do qual a organização assume o compromisso de indenizar o cedente (companhia seguradora) pelos danos que venham a ocorrer em decorrência de suas apólices de seguro.

Em outras palavras: o resseguro é o seguro dos riscos de uma companhia que não conseguiria absorver, isoladamente, um sinistro de vastas proporções. Em contrapartida, a seguradora deve realizar o pagamento de um prêmio de resseguro, além de comprometer-se no envio de informações necessárias para análise, fixação do preço e gestão dos riscos cobertos pelo contrato. Em suma, a seguradora assume o papel do segurado (produtor rural).

A transferência do risco à resseguradora pode abranger toda a carteira da companhia ou parte dela, ao proteger sinistros de grande envergadura, como as catástrofes climáticas. A medida contribui na manutenção da saúde financeira das seguradoras. A partir de 2010, o setor de seguros e resseguros tem demonstrado apetite por novidades. Segundo a Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), o mercado de resseguros saltou de R$3,8 bilhões para R$ 10 bilhões de faturamento anual.Hoje atuam no País 128 resseguradoras, entre nacionais e estrangeiras.

“Apenas 10% dos riscos segurados no País são ressegurados.Há grande espaço para avançar”, pontuou o ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), Tarcísio Godoy, em evento recente no Rio de Janeiro. Em sua análise, é preciso competir em igualdade de condições com as empresas internacionais, transformando o Brasil em polo ressegurador. No Brasil, há 12 companhias do gênero em atividade no segmento rural.

Crescimento e limitações

“A resseguradora é um parceiro que divide o risco em várias modalidades de contratos, de forma a participar do nosso modelo de negócio, independentemente da natureza do próprio contrato”, ressalta o diretor de Agronegócios do Grupo Banco do Brasil e Mapfre, Gláucio Toyama. No País, o potencial crescimento para resseguro é visível. Para o líder da Prática de Agronegócio e Papel e Celulose da Marsh Brasil, José Zanni, o setor se mobiliza no sentindo de encontrar modelos de gerenciamento de risco e produtos que, juntos, impulsionem o crescimento. “A diluição dos riscos das seguradoras é fundamental neste processo”, complementa Zanni.

Há certa unanimidade entre os players do setor quanto ao avanço do resseguro no País, em curto, médio e longo prazo. Análise do gerente de Riscos Rurais do IRB, Miguel de Almeida, leva em conta a abundância dos recursos naturais, a diversidade de solo e clima. “É preciso considerar importantes avanços históricos em pesquisa e investimentos em tecnologia aplicada no campo. Não nos assusta pensar que o valor bruto da produção agropecuária brasileira, em 2016, girou em torno de R$ 535 bilhões”, afirma. Contudo, segundo ele, apenas uma pequena parte foi transferida ao setor de seguros e resseguros ano passado, algo entre 5% e 7%.

A subscritora sênior de Agricultura da Swiss Re e coordenadora da Comissão de Agronegócio da Fenaber, Cristina Ribeiro, também concorda com o avanço destas companhias no segmento alavancado, em sua opinião, por programas de subsídio ao prêmio do seguro, sobretudo o federal. Cristina lembra que as resseguradoras, além de idealizar produtos com base no conhecimento e experiência em novos mercados, “concede uma grande capacidade financeira que viabiliza a geração de diferentes negócios, pois aproximadamente 80% do risco são mantidos nas resseguradoras e 20% com as seguradoras”.

Dados do estudo “JLT ID Report Brasil”, idealizado pela corretora JLT, confirmam o cenário favorável do setor. A performance dos riscos rurais encerrou o ano de 2016 com R$ 1,2 bilhão em prêmios cedidos, avanço de 19,7% em relação a 2015. O volume de contratos atingiu 99%, com R$ 1,19 bilhão em prêmios. As resseguradoras locais absorveram 78,2% do mercado, encerrando o ano com R$ 943,8 milhões. Embora o resultado da operação de resseguro tenha apresentado perda de R$ 481 milhões, com queda de 25% em comparação a 2015, a linha de negócios registrou crescimento de prêmios cedidos (veja gráfico). De acordo com a JLT, os números mostram que “o setor segue aquecido e com boas perspectivas”.

Miguel de Almeida, do IRB, adverte que um ambiente com estabilidade econômica e política é sempre mais favorável para expansão de qualquer atividade, o que inclui o mercado de resseguro. Mesmo quando a economia não apresentava sinais de recuperação, o setor já sinalizava números positivos. De acordo com o órgão, o faturamento das resseguradoras no meio rural passou de R$ 497 milhões em 2012 para R$ 1,2 bilhão no ano passado, exibindo uma taxa composta anual de crescimento (CAGR em inglês) expressiva de 25%, mesmo com algumas limitações como, por exemplo, nos recursos anuais para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural – PSR.

De fato, em meio a turbulências econômicas e políticas, o setor apresentava resiliência, tanto no âmbito das seguradoras, quanto nos resseguradores nacionais e estrangeiros que operam no Brasil. Ainda assim – opina o diretor-geral da Terra Brasis Resseguros, Rodrigo Botti – existem algumas limitações. “Há poucas seguradoras trabalhando o segmento agro, muita volatilidade no programa de subvenção do governoe baixa diluição de risco, hoje bem concentrado na Região Sul do País”.

Tania Amaral Heydenreich, headof Non-Life Treaty Underwritingda Munich Re, reforça o pensamento de Botti e aprofunda a análise: “Por razões históricas, o brasileiro ainda não tem uma cultura forte em relação à contratação de seguro. Esse cenário é ainda mais crítico no segmento agrícola, o que explica a baixa penetração e torna o desenvolvimento da demanda um dos principais desafios do mercado”.

Tania lembra que a falta de estímulo do poder público é outro entrave. “A maioria dos países com mercado de seguro agrícola desenvolvido possui um forte programa público de incentivo”. Na visão da executiva, o seguro rural no País não é parte efetiva de um programa agrícola de longo prazo, pois os recursos destinados, por meio da subvenção do prêmio, “ainda são modestos e incertos” e sofrem alterações a cada ano. Tania não tem dúvidas: na maioria das vezes, o mercado segurador e ressegurador têm de arcar com o prejuízo relacionado a tal incerteza.

Coberturas

O mix de produtos que as resseguradorastrabalham em parceria com as seguradoras é extenso e diversificado – abrange desde os seguros tradicionais agrícolas, o multirrisco (cobre diversos riscos climáticos numa única cobertura, o que inclui chuva excessiva, estiagens, geadas, granizo, raio ou incêndio), riscos nomeados (oferece coberturas distintas para riscos climáticos específicos) pecuário, florestal, patrimonial e o paramétrico. A cobertura deste último é baseada em parâmetros preestabelecidos na apólice, como a variação de um índice meteorológico – pluviométrico ou temperatura –, que indeniza o segurado caso estes índices sejam inferiores ou superiores ao que está estipulado na apólice.

“O segmento rural abrange uma série de produtos com uma característica de constituição e regulamentos diferentes de produtos de outros ramos”, explica Toyama, do Grupo BB e Mapfre. A Munich Re, por exemplo, também procura em parceria com seus clientes desenvolver novos mercados, que ainda não acessam o seguro agrícola, oferecendo soluções customizadas ou as “globais”, envolvendo seguros de vida e patrimonial. E a formulação da carteira deve atender aos amplos interesses do mercado. “Mas há uma demanda reprimida no campo. As companhias exibem produtos e faltam compradores”, comenta o presidente da SOM.US, Eduardo Toledo. Exatamente por isso, acredita o executivo, o resseguro rural vive perspectiva de crescer no Brasil nos próximos anos. Cristina, da Swiss Re, complementa: “Os resseguradores podem dar suporte técnico às seguradoras para que estas desenvolvam outros tipos de soluções, mantendo, assim, uma estabilidade maior da operação e possibilidades melhores para o ramo em longo prazo”.

Gerenciamento e catástrofe

Especialistas entendem que o leque de soluções a uma gama de clientes ávidos por proteção depende exclusivamente de uma ação estratégica: o gerenciamento do risco. José Zanni, da Marsh Brasil, explica a importância de mensurar o risco: “Ele está presente em todas as etapas da cadeia do agronegócio: desde o plantio, armazenamento de insumos, beneficiamento e processamento, além dos riscos financeiros advindos de perdas relacionadas aos desequilíbrios do clima, às doenças e também pela queda repentina dos preços de commodities”.

Nas últimas décadas, muitas organizações internacionais se instalaram no País atraídas pelo potencial do agronegócio nacional e dotadas de políticas de gestão de riscos mais consolidadas. Nesse cenário, surge a figura do gerente de riscos.“A resseguradora nos traz experiências de outras operações ao redor do mundo em face das peculiaridades dos produtos e soluções de cada região”, aponta Gláucio Toyama, do Grupo BB e Mapfre. Essa política de gestão de riscos é considerada fundamental em todo o processo, mas chama a atenção dos players os eventos catastróficos, que afetam, sobretudo, o campo e a indústria.

No Brasil existe uma proposta do Fundo de Catástrofe, criado pela Lei Complementar 137/2010, à espera ainda de regulamentação. A iniciativa substituiria o Fundo de Estabilidade do Seguro Rural (FESR), acionado quando os níveis de sinistralidade superam 100%, 150% e 250%. O objetivo central da Lei 137 é garantir cobertura complementar às seguradoras e resseguradoras para os riscos do seguro rural em situações de catástrofes climáticas, como secas, geadas intensas ou excesso de chuva, com subsídios do governo federal. Seguradoras, resseguradoras, agroindústrias e até cooperativas seriam também cotistas do fundo.

“No seguro agrícola é comum a safra de uma grande região ser afetada por uma seca ou excesso de chuvas. O resseguro tem um papel de alta relevância nesse contexto. Essa característica tende a aumentar em função das mudanças climáticas”, endossa Tania Amaral Heydenreich, headof Non-Life Treaty Underwriting da Munich Re. Segundo uma fonte do governo federal, deve ser constituído um lastro de R$ 4 bilhões, dos quais R$ 2 bilhões com aporte da União e os outros R$ 2 bilhões com emissão de títulos públicos federais. Contudo, a Lei 137 não definiu o porcentual em termos do sinistro de responsabilidade das seguradoras e resseguradoras e a parte que caberá à cobertura suplementar com recursos do fundo.

* Colaboração para a Revista Safra

A reportagem está disponível na íntegra na edição de setembro da Revista Safra, a partir da página 35

Publicidade

Publicidade