Além do milho

Apesar da supremacia incontestável da produção do cereal na segunda safra, outras culturas, se bem usadas, podem ajudar na remuneração do produtor

André Passos*

Quando a cotação do milho safrinha despenca e torna maior o peso do custo que o do lucro, o produtor começa a estudar alternativas mais remuneradoras. A atitude nem de longe chega a ameaçar a hegemonia deste grão, que representa mais de 90% da safrinha, mas abre espaço para culturas como sorgo, girassol, algodão, as principais, e até mesmo para outras marginais, por ficarem fora de bases estatísticas, como o milheto, crotalária, ou pelo capim braquiária, essas usadas essencialmente para alimentação animal ou recuperação do solo com rotação de cultura.

O País deve alcançar produção de 93 milhões de toneladas de milho nesta safra, mais de 62 milhões na segunda safra, levando em conta dados da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab). Como algumas das culturas de safrinha adentram a safra de verão, e vice-versa, somadas, a produção de itens como algodão (pluma e caroço) sorgo, cevada, trigo e girassol, resultará em uma produção de 11 milhões de toneladas, excetuando-se as safras de arroz e feijão.

Mas quando o preço não ajuda, quem aposta em alternativas se dá bem. Em Goiás, o milho entregue na indústria fechou a última quinzena de maio cotado em R$ 18,80. Nesse interim, os empresários rurais Volneimar Lacerda de Oliveira, Carlos Gomes e José Humberto Júnior, das fazendas Córrego Bonito e Cachoeira Alto da Serra, ambas no município de Buriti Alegre(GO), diversificaram a safrinha este ano.

Os produtores anteciparam 65% da expectativa de colheita de milho a R$ 23,50 a saca, preço já considerado baixo. Foram cultivados 1,1 mil hectares. Além do milho, optaram, pelo segundo ano, por 620 hectares de girassol vendidos 100% a R$ 75 a saca. Também plantaram 400 hectares de sorgo, que tem preço cotado girando em torno de 70% do milho e um pouco (não contabilizado) de milheto e braquiária.

Oliveira calcula que o lucro por hectare na lavoura de girassol será entre R$ 700 e R$ 1000, levando em conta uma produtividade girando em torno de 25 a 30 sacas, que é o esperado. Com o milho, ele estima que haverá um prejuízo de R$ 600 por hectare não comercializado se continuarem os preços atuais (R$ 18,80). Diante disso, a expectativa é de ampliação da lavoura safrinha de girassol no próximo ciclo (2017/2018).

“Na próxima safrinha nós, e alguns produtores da região, acreditamos que a área de girassol deve aumentar. Tudo vai depender dos preços da época, mas poderemos chegar a 1 mil hectares de girassol ano que vem e 600 de milho. Há muitos curiosos com o resultado das lavouras atuais”, explica.

Superintendente substituto de Gestão da Oferta da Conab, Stelito dos Reis Neto, informa que a tendência é que os preços do milho no final da safra se acomodem próximo ao mínimo, em Goiás de R$ 19,21. Na segunda semana de maio, por exemplo, os preços variaram por volta dos R$ 22,10 no Rio Grande do Sul, R$ 21,38 no Paraná, R$ 21,38 em Goiás e em R$ 17,27 em Mato Grosso.

Reis Neto observa que, mesmo para as demais culturas de safrinha, o milho continua merecendo destaque porque o mercado e preços vão sempre depender do que acontece com este grão. “Os Estados Unidos estão próximos de cultivar sua safra anual, mas liberaram relatório informando sobre atraso no início do plantio e o mercado reagiu com preços em alta. Em seguida saiu notícia de que a produção na América do Sul, como Argentina e Brasil, está muito boa, e os preços caíram novamente. Tudo isso, influencia as demais culturas”.

No caso do girassol, a ampliação da área depende da demanda da indústria local, explica o gerente de Levantamento e Avaliação de Safras da Conab, Cleverton Santana.  É esperada uma produção de 72,5 mil toneladas este ano, abaixo da média das últimas cinco safras, que foi de 126,1 mil toneladas. “Uma característica é que o girassol é muito leve e encarece o custo do frete. Por isso, a produção está sempre próxima da indústria e a indústria dita a demanda de acordo com seus estoques”, explica.

Na safra 2013/2014, por exemplo, cita Santana, foram cultivados 145,7 mil hectares no País, recorde de área cultivada. Esse aumento ocorreu devido ao início da atividade de uma planta industrial em Mato Grosso e elevou a média dos últimos cinco anos para 85,9 mil hectares. Nesta safra 2016/2017, esse espaço não será maior que 52 mil hectares. Considerada a produção desde o início da série histórica da Conab, que é de 1977, a média cai para 66,1 mil hectares.

A área ocupada pelo milho segunda safra gira em torno de 35% da destinada à soja na safra de verão. Dessa forma, não há competição de espaço de outras culturas de safrinha com o milho no País, como explica Santana, e existe a possibilidade de ampliação de outras culturas como girassol e sorgo, sem que seja afetada a área de milho.

“Normalmente, terminado o plantio do milho safrinha, o produtor decide se aumenta ou não a área de sorgo, por exemplo. Existe uma variabilidade nessa área plantada anualmente, dependendo do mercado”, diz.

Sorgo tem produção instável

Segundo o gerente de Levantamento e Avaliação de Safras da Conab, Cleverton Santana, até a safra 2000/2001, a maior área cultivada com sorgo havia sido de 543 mil hectares. A partir da safra 2002/2003 a área apresentou variações de 90 mil hectares a 600 mil hectares. “Não há nenhuma estabilidade, portanto não há uma tendência de crescimento”, explica o especialista da Conab. Nesta safra 2016/2017 espera-se uma área de 611,7 mil hectares para o sorgo e uma produção de 1,7 milhão de toneladas.

“O que define uma safra maior ou menor de sorgo, girassol, algodão etc é a demanda e o preço. Vai ter demanda? O preço vai ser bom? No caso do sorgo, se o preço do milho está alto, o mercado busca alternativas e vai atrás. Não é o que acontece atualmente. Não existe uma safra como a outra. Cada uma está ligada a fatores externos e internos como nesse ano”, conta o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Hélio Sirimarco.

Além da questão econômica, outro fator importante é levantado pelo engenheiro- agrônomo, consultor técnico do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg)/Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja Goiás) Cristiano Palavro, que é o antagonismo da cultura do sorgo com a soja. “Alguns pesquisadores recomendam que se faça uma dessecação bastante antecipada para plantar a soja após o sorgo. Dizem que deixa substância no solo que é negativa ao desenvolvimento inicial da soja. Então muitos produtores têm essa impressão de que a soja plantada após o sorgo não tem um desenvolvimento tão produtivo”, diz ele.

Palavro completa dizendo que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), também faz ressalvas sobre isso. “Recomendam que se faça uma dessecação de pelo menos 28 dias antes do plantio de soja. No Cerrado isso é difícil porque nem se consegue esperar o início de chuvas para plantar. Então, economicamente ele é bastante interessante, porque é uma cultura barata, é rústica, tem mercado, tem menos perdas, mas agronomicamente tem esse viés um tanto negativo”.

“São culturas que vêm se apresentando muito boas em função da resistência da estiagem. Temos mercado bom que dá segurança para o plantio. Os preços têm se comportado bem e pode haver uma evolução nessa diversificação na próxima safra, mas é preciso levar todos os prols e contras na balança antes de decidir por qual escolher”, conta o produtor de Buriti Alegre José Humberto Júnior.

Independente da decisão tomada, o diretor da MB Agro Consultoria, José Carlos Hausknecht, confirma que a safrinha desse ano vai ser muito grande. “Vai ser recorde. Houve crescimento de área e de milho safrinha. Isso vai fazer com que os preços caiam e provoca uma dúvida para a safrinha do ano que vem. Talvez esses preços não estimulem o plantio ao contrário do que aconteceu ano passado”, diz Hausknecht. Essa movimentação pode estimular o cultivo de outras culturas, como o girassol, algodão, no Centro-Oeste, trigo, centeio, aveia, no Sul do País.

tabela

*Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de junho da Revista Safra, a partir da página 13.

Foto: Arquivo Pessoal

Publicidade

Publicidade