Águas de março

Marcelo Barreto da Silva, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário de Agricultura do município de São Mateus-ES e coordenador do Programa Agro+: por uma agricultura mais sustentável 

O mês de março está iniciando e com ele o final do período das chuvas, que caracteriza o verão tropical da região sudeste brasileira. “Águas de março”, música composta por Tom Jobim, nos faz lembrar que após as chuvas, se iniciará um outro período, mais seco e frio. Verão chuvoso e inverno seco. No verão sofremos com as chuvas intensas e seus efeitos nas cidades (enchentes e deslizamentos) e no campo (inundação, queda de pontes, estradas vicinais intransitáveis). No inverno lamentamos a falta de chuva, especialmente nos últimos anos, sob o efeito do El niño. Nas cidades, racionamento de água e energia mais cara, no campo, perda de lavouras. Parece que não estamos preparados nem para a chuva e nem para a falta dela. Como mudar um pouco este cenário que se repete ano após ano?

É preciso lembrar que a água tem um ciclo que deve ser mantido. Ela vem para terra por meio da chuva. A maior parte deve infiltrar-se no solo. A partir do solo, ela deve retornar à superfície por meio das nascentes, garantindo assim a perenidade de córregos, riachos e rios. A preservação deste ciclo é a maneira mais econômica e sustentável de garantir a quantidade e qualidade da água que precisamos. A não infiltração da água no solo é uma das principais causas dos problemas decorrentes das chuvas de verão. Água correndo sobre o solo e não nos leitos dos rios é sempre um desastre. Nesta condição, ela se torna uma força devastadora, como é possível ver nos noticiários. Nada é capaz de contê-la. Estradas e represas são destruídas, veículos arrastados como se fossem gravetos.

A impermeabilização do solo nas grandes cidades é fato. Seja nas vias, pelo asfalto, seja nas residências pelo cimento e o concreto. Uma chuva mais intensa faz com que o volume de água na superfície suplante a capacidade de escoamento dos sistemas de drenagem. Estes, muitas vezes, mal dimensionados. Além disto, estão entupidos pelo lixo urbano. Faltam jardins, bosques e áreas de contenção. Os pisos são impermeáveis à água e as áreas urbanas são cada vez mais extensas e contínuas. Ou melhoramos os sistemas de escoamento, ou melhoramos a capacidade de infiltração da água nos solos urbanos. Preferencialmente, deveríamos caminhar nas duas direções.

No campo, a infiltração da água é reduzida pela compactação decorrente do solo desnudo e uso excessivo de máquinas. Faltam ações de contenção das águas nos morros como plantios em curva de nível, faixas de contenção e terraços. As zonas de captação de água como topos dos morros e nascente estão desprovidas de matas. Enxurradas correm livremente pela superfície do solo destruindo estradas, causando voçorocas e levando a fertilidade do solo para os rios. Os rios passam a receber partículas sólidas que ao longo do tempo se depositam no leito promovendo o assoreamento, tornando-os mais rasos e sujeitos às enchentes mais frequentes. As águas das chuvas, cada vez mais intensamente seguem diretamente para o rio. Do rio para o mar. No campo ficam as voçorocas, solos erodidos e pobres, nascentes secas.

Percebemos que a solução do problema da falta, quanto do excesso de água, passa de longe pelas discussões relacionadas ao aquecimento global e da emissão de gases de efeito estufa. A solução está nas escolas rurais e urbanas. Na formação do cidadão. No planejamento urbano e rural. Nas ações a longo prazo. Na valorização da água e no conhecimento de seu ciclo. Em levar para o cotidiano aquilo que se aprende na escola. Em fiscalizar e punir aqueles que insistem no erro. É mais um problema de sensibilidade e de importar-se que de conhecer. Afinal, nada de novo foi escrito aqui…

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