Adeus, alergia!

Produção de leite sem proteína alérgica depende da seleção de zebuínos e ainda engatinha no Brasil

Diene Batista*

Um copo de leite pode ser um problemão para muita gente, seja pela falta da enzima lactase, o que provoca a intolerância ao alimento, seja pela alergia à proteína betacaseína tipo A1. A reação imunológica do corpo gera reflexos na pele, no sistema respiratório, além de constipação e de dores abdominais. Mas a seleção de animais que produzem leite A2 pode colocar fim nas alergias por causa da bebida.

Os zebuínos – como gir, sindi, guzerá e girolando – são os mais adequados para esse tipo de manejo, como explica o pesquisador da área de bioinformática e melhoramento animal da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Gado de Leite, Marcos Vinicius Barbosa da Silva. Hoje, a instituição faz a genotipagem do gado para seus programas de melhoramento. Os testes genéticos verificam se os animais são homozigotos – com alelos (genes) A2A2 – ou heterozigotos – A1A2.

Pesquisas já comprovaram que nos zebuínos o gene A2 aparece em pelo menos 70% do rebanho. Nos taurinos, o alelo está presente em apenas 30% da população. “Os taurinos da raça holandesa, por exemplo, são maiores produtores de leite, mas a frequência do alelo A1 é muito grande. O trabalho [de selecionar um rebanho A2] é muito mais rápido e barato nas raças zebuínas”, compara.

A genotipagem dos zebuínos também chama a atenção de laboratórios como o mineiro Gene/Genealógica, de Belo Horizonte, que desenvolveu uma nova metodologia focada no baixo custo. O valor da checagem pelo lote de animais gira em torno de R$ 35 e são analisadas amostras dos pelos dos zebuínos. “Os produtores de leite estão se empenhando na melhora da qualidade. O mercado está mais exigente o que, sem dúvida, vai proporcionar produtos mais saudáveis feitos com leite A2”, analisa a diretora do laboratório, Helena Bicalho.

Rebanho “lapidado”

Selecionar o rebanho até que ele se torne completamente A2 pode levar anos. Mas a demora, muitas vezes, é aliada do bolso do produtor, como explica o pesquisador da Embrapa Gado de Leite. É que os custos, como o da compra de animais A2A2, são diluídos ao longo do tempo. Para formar um rebanho com zebuínos com betacaseína A2, dois caminhos podem ser tomados.

Primeiro, o do descarte. Inicialmente, as vacas A1A1 são retiradas do plantel. Depois, os animais A1A2 também saem, dando lugar aos A2A2. O outro processo é do acasalamento: fêmeas A1A2 e A2A2 são juntadas com touros A2A2. “É um processo demorado, mas que se torna mais barato para o produtor, porque o investimento acontece ao longo do tempo”, frisa.

A diretora do Gene/Genealógica, Helena Bicalho, explica que o produtor pode também aproveitar as “características interessantes” dos animais com genes A1 por meio do acasalamento. “Uma vaca A1A2, com boas características, pode ser acasalada com um touro A2A2. Em média, 50% dos produtos serão A2A2. Se o produtor tiver que descartar, descarta o outro, que é A1A2”, exemplifica.

Segundo Silva, a questão genética já não é mais um entrave para a produção de leite não-alérgico. A principal dificuldade diz respeito à estrutura que a comercialização do produto demanda. “Não adianta produzir o A2 e, quando o caminhão da cooperativa chegar na propriedade, misturá-lo com o A1”, exemplifica. O ideal é processar o leite A2 com uma estrutura do próprio criador ou de cooperativas.

Pioneirismo

Foi exatamente o que fez o produtor e médico-veterinário Eduardo Falcão, da Estância Silvânia, em São José dos Campos, na região do Vale Paranaíba, em São Paulo. Em novembro do ano passado, lançou o primeiro produto A2 brasileiro. No laticínio que ele arrendou, são produzidos queijos, iogurtes e manteigas com leite de animais da raça gir leiteiro, com a qual sua família trabalha há mais de 55 anos.

“Hoje, só trabalhamos com o subproduto. A questão da industrialização do leite foi aprovada há pouco tempo e estamos prestes a concretizá-la. Queremos fazer um produto até mesmo visualmente diferenciado, que será industrializado dentro da propriedade e sairá pronto para o comércio. Para isso, estamos aguardando a construção de uma granja leiteira”, adianta, prevendo que até o final deste ano o leite deve chegar ao mercado.

O trabalho pioneiro foi iniciado há cerca de oito anos, quando soube, por meio de um nutrólogo, sobre o leite com a betacaseína A2. Além do produto não alérgico, ele investe ainda na qualidade do rebanho: o gado é criado a pasto, sem uso de hormônios. “Os produtores já estão inteirados dessa questão [da genotipagem]. Acredito no trabalho da classe médica para esclarecer a população sobre os benefícios do leite A2. Essa é uma tendência mundial, que em algumas décadas será concretizada como uma mudança de condição dos animais produtores”, analisa.

A Estância Silvânia tem 250 animais da raça gir leiteiro produzindo A2. A meta de Falcão é obter 60 vacas em produção, com mil litros diários. Hoje, são 40 animais, com 700 litros. “O maior desafio é chegar ao consumidor. Embora a gente tenha um produto de excelente qualidade, ainda há entraves de legislação e é tudo muito moroso, mas estamos trabalhando para melhorar isso”, detalha ele, que também é diretor da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), se referindo ao diálogo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para a criação de normas sobre a industrialização do leite A2.

Projeto-piloto no RS

No Rio Grande do Sul, o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat), trabalha para a criação de um projeto-piloto para a produção de leite A2. O secretário-executivo da entidade, Darlan Palharini, explica que a iniciativa está em fase inicial. O objetivo é conhecer a forma de produção e verificar se o mercado vai remunerar o produto de maneira diferenciada.

Em julho, amostras dos animais foram colhidas e enviadas para a análise em laboratório. A ideia é trazer novidades sobre o trabalho já no próximo fórum da entidade, em outubro. Para tanto, o Sindilat firmou parceria com a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). Na fazenda da instituição, há um rebanho com 110 animais, cerca de 40 deles destinados à produção leiteira. Esse plantel fará parte do projeto para o leite A2.

A propriedade da universidade é de tamanho semelhante ao perfil das propriedades do Sul do Brasil, explica ele, avaliando que o nicho do alimento sem a betacaseína A1 pode não interessar às médias e grandes propriedades, por não ter um volume compatível com esses empreendimentos.

Intolerância e alergia

Existem dois tipos de reações provocadas pelo leite: alergia e intolerância. A reação alérgica é uma resposta imunológica do organismo. Ao entrar em contato com as células, o leite A1 e seus derivados consumidos são reconhecidos pelo corpo como um inimigo. O sistema imunológico, então, ataca o leite, provocando reações como alergias na pele, reações respiratórios, constipação, dores abdominais e diarreia, náusea e vomito.

No caso da intolerância à lactose, o organismo é totalmente ou parcialmente incapaz de digerir o açúcar do leite e de derivados, pois não há a enzima lactase. Assim, o açúcar permanece no organismo, fica acumulado no intestino e é fermentado por bactérias. A reação pode ser leve, moderada ou grave, provocando sintomas como dores abdominais, gases, diarreia, náusea e inchaço. No Brasil, cerca de 25% das pessoas tem algum grau de deficit ligado à enzima.

Presença no mercado mundial

No Brasil, a produção de leite A2 ainda engatinha. Mas em países como a Nova Zelândia a oferta dele e de seus derivados já é grande. Um exemplo é a The a2 milk company, especializada neste tipo de alimento. Criada em 2003, a empresa abocanhou quase 10% do mercado de leite fresco do país, embora do produto seja vendido a cerca de 1,99 dólares por litro, mais do que o dobro do preço do comum.

O produtor Eduardo Falcão, da Estância Silvânia, pioneiro na produção de derivados do leite A2, confirma a tendência de que o “valor agregado” reflita no preço no Brasil. “É um produto diferenciado, com pouca oferta e uma procura relativamente grande. Então, a gente tem uma agregação de valor, sim”, explica.

Além do leite fresco, a a2 milk comercializa leite em pó, sorvete e outros lácteos sem A1. A a2 milk já chegou ao mercado chinês, onde comercializa fórmulas infantis. A companhia entrou no Reino Unido, em 2012, e expandiu para os Estados Unidos no ano passado.

Quando o leite “faz mal”

Alergia:

– O organismo enxerga o leite A1 e seus derivados como “inimigo”

– O sistema imunológico ataca e provoca reações: alergias na pele, reações respiratórios, constipação, dores abdominais e diarreia, náusea e vomito.

Intolerância:

– Como não há a enzima lactase, o organismo é totalmente ou parcialmente incapaz de digerir o açúcar do leite e de derivados

– Esse açúcar permanece no organismo, fica acumulado no intestino e é fermentado por bactérias

– A reação pode ser leve, moderada ou grave: dores abdominais, gases, diarreia, náusea e inchaço.

Rebanho A2

Por meio de testes genéticos, é possível montar um plantel com animais A2, que produzem leite não-alérgico

– Genotipagem mapeia quais vacas são A1A1, A1A2 e A2A2

Caminho 1: Descarte  

– Animais A1A1 saem do plantel, em um primeiro momento

– Vacas A1A2 dão lugar às A2A2

Caminho 2: Acasalamento

– Animais A1A1 saem do plantel, em um primeiro momento

– Vacas A1A2 são cruzadas com touros A2A2

Zebuínos: 70% do rebanho é A2

Taurinos: 30% do rebanho é A2

Fonte: Embrapa Gado de Leite

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de setembro da Revista Safra, a partir da página 28.

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