Adaptável e feroz

Classificado como espécie invasora exótica, o javali ataca lavouras, rebanhos, além de causar impactos ambientais

Daniel Gondim*

Trazido da Europa para a América do Sul, o javali permanece selvagem, mesmo estando no continente há mais de 100 anos. A migração dos animais em busca de comida, a entrada clandestina no Brasil e até a importação de espécies na década de 1990 elevaram a população, o que tem resultado em perda de lavouras e rebanho, preocupando até o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), que libera a caça controlada da espécie.

A falta de predadores naturais e características como a agressividade e a facilidade de adaptação tornam o animal, que ataca em bando, uma das 100 espécies invasoras mais perigosas do mundo, segundo o Ibama. No Brasil, há registros de sua presença em 15 Estados. Em Santa Catarina, por exemplo, os ataques aumentaram significativamente nos últimos cinco anos, o que levou a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc) a emitir alertas aos produtores rurais.

A entidade recomendou aos produtores que tivessem problema com javalis que chamassem a Polícia Militar Ambiental para cuidar do manejo da espécie. A caça foi desencorajada, pois, segundo a Faesc, é necessária uma série de requisitos e procedimentos, além de licença especial.

No YouTube, é possível ver vídeos de caças ao animal. Os cães, usados pelos caçadores para farejar o bando, estão entre as principais vítimas, mas há registros de morte de seres humanos também. Em 2016, um homem morreu na cidade mineira de Santa Margarida depois de ser atacado por um javaporco, resultado do cruzamento entre o animal e o porco doméstico.

Prejuízos

Os prejuízos causados pelos javalis são vários e vão desde a destruição de lavouras até o assoreamento de rios. Além de pisotear a plantação, os animais permanecem na região, especialmente na cultura de milho, se alimentado até a maturação do alimento. A espécie pode ainda transmitir doenças como a peste suína africana, peste suína clássica, febre aftosa, brucelose, leptospirose, tuberculose, parvavirose suína, dentre outras.

Recentemente, um estudo de pesquisadores brasileiros mostrou uma relação perigosa entre o javali e seus híbridos com o morcego-vampiro, que carrega o vírus da raiva. “O vírus da raiva é transmitido por meio da saliva de morcegos. O vampiro D. rotundus é também reservatório de outros vírus com potencial epidemiológico, como o hantavírus e o coronavírus”, afirmou ao site de notícias daFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)o professor colaborador do Museu de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Ivan Sazima, um dos autores do estudo.

Além dele, também assinam o estudo o professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro Mauro Galetti, o doutorando Felipe Pedrosa, além da bióloga da WildlifeConservationSociety – Brasil, AlexineKeuroghlian.

A lista dos impactos ambientais provocados pelos javalis é extensa. Segundo o Ibama, a espécie pode causar ainda alterações físico-químicas do solo, erosão, assoreamento de rios e mudanças nas comunidades de plantas, como alteração na diversidade de espécies, no crescimento, na sobrevivência, na regeneração e na cobertura.

Além disso, ele também afeta comunidade animais por meio de predação de vertebrados e invertebrados, competição com outras espécies e destruição de habitats. Em muitos países, os javalis são considerados pragas agrícolas por consumirem plantas cultivadas e ainda porque os hábitos alimentares da espécie podem danificar seriamente as plantações, causando grandes prejuízos aos agricultores.

No Brasil, segundo o Ibama, os estudos do impacto ambiental do javali trazem itens como alimentação de plantas nativas como imbuia, pinhão e guamirim; sobreposição de nicho alimentar com queixada; prejuízos em plantios no milho, mandioca, soja, feijão, batata, pinus, tomate, abóbora e cana-de-açúcar; ataques à criação de ovelhas; impacto em cursos d’água e ataques a humanos.

Controle inclui abate

Por causa da ameaça que representa, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) autoriza o manejo de javalis por meio do abate. A permissão pode ser obtida por qualquer pessoa, desde que obedeça a uma instrução normativa editada em janeiro de 2013 e que foi elabora em conjunto pelo próprio Ibama e por órgãos como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Exército e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

“Os métodos de controle autorizados são a perseguição, o abate, a captura e a marcação de espécimes seguidas de soltura para rastreamento, a captura seguida de eliminação e a eliminação direta de espécimes”, enumera o Ibama, que classifica o animal como espécie invasora exótica.

Além de controle, a caça também serve para avaliar o tamanho da população da espécie no Brasil, já que não existem dados concretos sobre o tema. “Os dados quantitativos sobre caça podem fornecer informações sobre padrões históricos de distribuição geográfica e demografia de espécies cinegéticas”, afirma o Ibama.

Por isso, cada caçador autorizado, seja pessoa físicas ou jurídica, é obrigado a encaminhar ao Ibama relatórios de manejo, cujo objetivo é elaborar o índice de número de javalis abatidos por caçador-dia. No entanto, os dados compilados até hoje ainda não são suficientes para estimar a população no País, segundo o instituto.

Para facilitar o controle, o Ibama editou uma cartilha para tornar mais fácil a identificação da espécie e de seus híbridos, como o javaporco, resultado do cruzamento com o porco doméstico. Além disso, o javali também é frequentemente confundido com animais nativos brasileiros, como as queixadas e os catetos, cuja caça é proibida.

*Colaboração para a Revista Safra 

A íntegra desta reportagem está disponível na edição de março da Revista Safra, a partir da página 37.

Foto: Fotolia

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