A operação que (quase) desandou

Excessos, erros e alarmismo torpedeiam as exportações de carnes e quase põem a perder operação que investiga malfeitos no setor frigorífico

Lauro Veiga Filho*

Detonada com estardalhaço inédito, a Operação Carne Fraca mobilizou 1,1 mil policiais federais na sexta-feira, dia 17 de março, e nos dez dias seguintes já havia executado 27 mandados de prisão preventiva, 77 de condução coercitiva, 194 de busca e apreensão e 11 mandados de prisão temporária. Envolveu 21 plantas frigoríficas no Paraná, onde concentra-se a maior parte delas, e ainda em Goiás e em Minas Gerais, e atingiu em cheio a imagem do País frente a mais de 150 mercados que consomem a carne brasileira ao redor do globo. O torpedo atingiu precisamente os dois maiores grupos do setor no País e, não por coincidência, os dois maiores exportadores de carnes – BRF e JBS, este último, líder global no mercado de proteínas animais.

Falhas de comunicação, erros técnicos grosseiros e uma boa dose de voluntarismo ajudaram a transformar num quase fiasco uma operação destinada a coibir, em sua origem, relações pouco republicanas entre agentes do setor de defesa animal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), frigoríficos e políticos de dois partidos (PP e PMDB) citados na investigação. Ao fim e ao cabo, a Carne Fraca não foi lançada para investigar desvios na área da sanidade animal e ameaças à segurança alimentar dos consumidores, mas para desvendar esquemas de corrupção montados supostamente para evitar ou impedir a devida fiscalização do processamento de carnes e alimentar caixas de campanha.

Uma semana após deflagrada a operação, em entrevista ao telejornal mais importante na grade de programação da maior rede de TV do País, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal em Curitiba, que autorizou a ação da PF no caso, afirmou que o inquérito tinha (e tem) objetivo “bem específico”, que é a investigação de uma suposta associação entre fiscais federais e frigoríficos com o propósito de assegurar “alguma facilidade no processo de certificação dos produtos de origem animal”.

Em outro trecho da mesma entrevista, o juiz ainda reforça que o inquérito, “em momento algum, abrangeu todo o processo de inspeção dos produtos de origem animal do Brasil. Portanto, com base na Carne Fraca, é impróprio dizer que o Brasil não tem condições de exportar ou vender no mercado interno os produtos de origem animal”. Além disso, não havia, até então, a comprovação de problemas sanitários nas unidades sob investigação.

As declarações do juiz apenas reafirmam o tom muito acima do normal registrado no momento de divulgar a operação por delegados da PF. Informações truncadas e sem suporte técnico, transcrições de conversas fora de contexto e insinuações deixaram a impressão de que toda a indústria de carnes brasileira sofria problemas de ordem sanitária, ameaçando a saúde pública em todo o País.

Num exagero evidente, entre os “problemas” identificados foram citados a presença de papelão na produção de embutidos, o uso de “substâncias cancerígenas”, incluindo entre elas o famigerado ácido ascórbico (a boa e velha vitamina C), o aproveitamento de cabeças de suíno no processamento de carnes e ainda a aplicação de substâncias químicas para “disfarçar” a cor e o cheiro de carne podre. Bastaria uma consulta a especialistas do setor para verificar que as alegações não tinham fundamento ou eram exageradas, citando aditivos e processos devidamente aceitos pela legislação como se fossem impróprios ou criminosos.

Na mesma sexta-feira em que a Carne Fraca saiu às ruas, o Mapa decidiu interditar, preventivamente, por falhas nos sistemas de controle da produção, conforme explicação oficial, as plantas da BRF em Mineiros (GO), onde já se acumulavam, ao final de março, quase 500 mil aves nas granjas dos integrados, diante da interrupção dos abates, da Peccin Agro Industrial, em Curitiba(PR) e em Jaraguá do Sul (SC).

Nos dias seguintes, uma força tarefa do Mapa, formada por 250 auditores fiscais, agentes de inspeção e de atividades agropecuárias, vistoriou todas as plantas investigadas pela PF e já havia emitido, até a semana final de março, 12 laudos, todos eles relacionados às três unidades que já haviam sido interditadas, apontando, não problemas sanitários, mas fraudes econômicas e crimes contra o consumidor.

De acordo com o ministro Blairo Maggi, da Agricultura, entre as amostras analisadas não foi observada qualquer “anormalidade que possa fazer mal à saúde humana”. Entre as irregularidades verificadas pela força tarefa incluem-se o uso de água em volume superior ao permitido em frangos e ainda a presença de amido em salsichas, igualmente em porcentuais superiores aos estabelecidos pela legislação.

As equipes de fiscalização averiguaram ainda registros de controle de fabricação, matérias-primas, interrogou funcionários e avaliou as condições de higiene nas 21 plantas relacionadas pela PF. Uma empresa fabricante de ração animal foi igualmente interditada por uso de subprodutos com data de validade expirada. Os fiscais do Mapa coletaram amostras nas áreas de produção das unidades auditadas e ainda em estabelecimentos do varejo em 22 Estados, onde foram recolhidas 174 amostras de produtos, ainda sob exame do Mapa. Os resultados finais da análise de mais esse lote de amostras ainda não haviam sido apresentados pelo Mapa até o fechamento desta edição.

Qual o tamanho do estrago?

Numa passagem pelo Congresso, na quarta-feira seguinte à operação, o ministro Blairo Maggi ajudou a exacerbar o clima de quase terrorismo, amplificando as perspectivas de perdas geradas pela ação policial. Utilizando estatísticas diárias sobre as vendas externas, Maggi afirmou que as exportações de carnes haviam desabado de 60,5 milhões para 74 mil dólares, na média observada nos primeiros dias após a Carne Fraca. Obviamente, o mercado internacional reagiu negativamente e, num primeiro momento, até que informações e explicações mais detalhadas e mais próximas da realidade fossem divulgadas, paralisaram o desembarque de carnes.

No balanço mais atualizado do Mapa, liberado para a imprensa no dia 29, um total de 34 países mais a União Europeia haviam estabelecido alguma forma de restrição à carne brasileira, dos quais sete já haviam reaberto seus mercados e quatro haviam decidido barrar apenas o produto das 21 plantas frigoríficas colocadas sob suspeita.

Os dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) não parecem sugerir um cenário tão drástico quanto o desenhado pelo titular do Mapa.Considerando a média diária e apenas produtos in natura, as exportações totais de carnes (bovina, suína e de frango) alcançaram 49,497 milhões de dólares nas quatro primeiras semanas de março, num recuo de 4,2% frente a fevereiro, quando foram registrados embarques no valor 51,688 milhões de dólares. Mas persistia um avanço de 6,7% frente a março do ano passado, que registrou média diária de vendas de 46,405 milhões de dólares.

Na liderança, as exportações de frango in natura baixaram de 27,882 milhões para 25,644 milhões de dólares na passagem de fevereiro para março, em queda de 8%. Mas foram 10,5% mais elevadas do que o embarque médio de 23,207 milhões de dólares realizado em março do ano passado. As vendas de carne bovina in natura, numa tendência observada também no primeiro bimestre deste ano, recuaram 3,4% entre fevereiro e março e encolheram 6,4% em relação ao mesmo mês de 2016, chegando a 17,502 milhões de dólares nas quatro semanas iniciais de março. Os embarques de carne suína seguem em alta em qualquer comparação, subindo 11,5% de fevereiro para março deste ano e nada menos do que 40,9% desde março do ano passado, chegando a 6,351 milhões de dólares.

Ainda não é possível avaliar qual será o tamanho do estrago. A paralisação das vendas para alguns mercados e o atraso dos embarques na maioria dos casos poderão afetar as exportações do setor, gerando efeitos em cadeia sobre um setor que movimentou, no ano passado, em torno de R$ 488 bilhões, algo como 7,8% do Produto Interno Bruto (PIB), na contabilidade do presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antonio Jorge Camardelli. Ainda em março, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, estimou que o setor teria deixado de exportar em torno de 40 milhões de dólares apenas na primeira semana após a operação da PF.

Em outro efeito da investida policial, o grupo JBS, que emprega 125 mil pessoas no Brasil, primeiro decidiu paralisar por três dias o abate em 33 de suas 36 plantas no País. Na sequência, anunciou uma redução geral de 35% nos abates diários e, na semana final de março, informou ao mercado a decretação de férias coletivas em dez de suas unidades (incluindo a de Senador Canedo-GO) durante 20 dias a contar de 3 de abril.O mercado teme que a paralisação afete os preços do boi gordo e também dos grãos, a depender de como o restante da indústria irá reagir.

As exportações de carnes, que responderam por 16,7% do total das vendas externas do agronegócio no ano passado, vêm em queda já há dois anos e ensaiavam uma reação neste ano. Desde 2014, as vendas externas do setor baixaram 18,5%, saindo de 17,429 bilhões de dólares naquele ano para 14,724 bilhões em 2015 (-15,5%) e daí para 14,211 bilhões de dólares em 2016. No primeiro bimestre deste ano, subiram 18,7% ao passar de 1,976 bilhão no acumulado entre janeiro e fevereiro de 2016 para 2,344 bilhões de dólares.

Ofensiva para reconquistar mercados

O Mapa pretende iniciar já a partir desde mês uma ofensiva para tentar reconquistar a confiança dos mercados na carne brasileira, programando uma série de missões técnicas ao exterior. A primeira escala será na União Europeia, numa agenda a ser cumprida pelo secretário-executivo do ministério, Eumar Novacki. Já com Blairo Maggi à frente, equipes do ministério percorrerão, em maio, durante 20 dias, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Ásia, incluindo a China no roteiro.

*Colaboração para a Revista Safra 

A íntegra desta reportagem está disponível na edição de abril da Revista Safra, a partir da página 24.

Foto: Divulgação

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