A árvore “da vida”

Resistente à seca e rica em nutrientes, moringa pode ser usada na alimentação humana e animal e até na purificação da água

Diene Batista**

As cerca de 50 sementes que o produtor rural Nicanor Egídio, 73, conheceu por meio de parentes, há quatro anos, se multiplicaram. Hoje, já são 4 mil pés de moringa oleífera no Sítio Confiança, em Bela Vista, na grande Goiânia (GO), número que deve chegar a 15 mil em dois anos, segundo ele. A alcunha de árvore “da vida” se justifica pelos seus múltiplos usos. Da semente às flores, serve como alimento para homens e animais e até para a purificação da água (veja quadro). Tantos predicados podem ajudar regiões onde há escassez de chuvas e auxiliar produtores da agricultura familiar.

No sítio de Egídio, o caule e as folhas da moringa são triturados e depois usados como complemento na alimentação do gado leiteiro. Treze vacas fazem parte do grupo que ele escolheu para testar os benefícios da árvore. Eles são alimentados com o silo de milho, com a ração balanceada e com o preparo triturado. “A produtividade de leite aumentou 20%, a minha intenção é diminuir o custo da produção. Já estou hoje fazendo em torno de 10% de economia na ração balanceada. Se Goiás enfrentar uma seca, falta de alimento, terei a moringa como parceira”, comemora.

Originária da Índia, a moringa tem alto valor nutricional. Por lá, já é usada há 5 mil anos tanto na culinária quanto na medicina moderna e tradicional. Trabalhando com a árvore desde 2006, o pesquisador Frederico Lisita, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Pantanal, diz que naquele país existem pesquisas que investigam o poder da planta – que tem alto teor de proteínas e vitaminas – para o combate ao diabetes, ao colesterol e à hipertensão.

Por aqui, seu uso na agricultura ainda é tímido, mas com potencial para auxiliar produtores na alimentação de ruminantes e de galinhas poedeiras. É para esse nicho que se dedicam os estudos desenvolvidos pela empresa em assentamentos da região de Corumbá, em Mato Grosso do Sul. “Toda moringa é aproveitável. Podemos utilizar folhas e as flores como fonte para alimentar tanto animais quanto humanos; tem potencial melífero, tem potencial paisagístico”, enumera, citando as vantagens para o agricultor familiar em apostar na planta.

Na pecuária, folhas e talos triturados se transformam no feno de moringa, usado para os ruminantes. “No momento da seca, quando o pasto está com uma pior qualidade, usamos o feno da moringa, que cortamos, trituramos e deixamos secar. Depois, misturamos de 20% a 30% da moringa com silagem”, explica Lisita, que recomenda a utilização da moringa junto à cana: elas são fontes de proteína e de energia, respectivamente.

Já na avicultura, a folha da moringa – após secagem e trituração – substitui o farelo de soja na alimentação das galinhas poedeiras. O pesquisador diz que o uso da planta dá ao produtor a alternativa de uma proteína ao farelo da soja. “Na nossa região, não produzimos o farelo, então, é um produto que vem de fora. A moringa é uma alternativa que pode ser produzida na própria fazenda”, valoriza.

A árvore também é opção para o produtor que deseja trabalhar com um sistema orgânico ou agroecológico. Perene e resistente, a moringa dispensa o uso de agroquímicos. Mesmo sem dados quantitativos, Lisita vê um crescente interesse pela moringa, em diversas regiões do Brasil. Na Bolívia, país vizinho a Corumbá, por exemplo, ele diz ter visto as folhas sendo vendidas em feiras. “Já vi até comércio de cápsulas”, afirma.

Múltiplos usos

A moringa pode chegar a seis metros de altura, mas manejos específicos adequam seu tamanho à demanda do produtor. Conforme o pesquisador da Embrapa Pantanal, Frederico Lisita, que trabalha com a planta desde 2006, se quiser utilizar folhas e sementes, por exemplo, deve-se podar a planta rente ao solo e retirar as brotações. Para aproveitar a vagem, usada na alimentação, a alternativa é cortar as folhas, durante o crescimento da moringa, que também pode ser plantada de forma consorciada com outras culturas.

Durante todo o ano, em condições adequadas de umidade e temperatura, a planta tem vagem e flores com capacidade de produzir mel. “As vagens novas podem ser cozidas e consumidas”, ilustra. Segundo Lisita, óleo da moringa tem ácidos graxos semelhantes ao de oliva e pode ser usado na culinária, em cosméticos e medicamentos. Já as folhas podem ser consumidas de várias formas: frescas, como saladas; cozidas, em sopas e trituradas.

“A moringa tem alto teor nutritivo. É rica em vários minerais, como fósforo, cálcio e ferro. Também tem grandes quantidades de proteínas e vitaminas, podendo ser utilizada tanto em sua forma fresca quanto seca. Ela tem todos esses nutrientes e possui baixa caloria. Por isso, é interessante, inclusive, para as pessoas que estão fazendo dieta”, afirma, citando que a planta é considerada um alimento funcional porque possui várias substâncias que previnem doenças, como antioxidantes e pigmentos carotenoides.

Ajuda aos peixes

Estudantes goianos que venceram a etapa Centro-Oeste Robótica First Lego League criaram a Bolmoringa: uma bolsa preenchida com extrato da semente da Moringa oleífera, substância natural capaz de reduzir a matéria orgânica na superfície da água. A proposta é salvar os peixes da eutrofização: enriquecimento de nutrientes nos ambientes aquáticos. O conteúdo da bolsa impediria a proliferação de algas na superfície e, consequentemente, a fotossíntese nos fundos dos lagos.

A ideia é implantar as bolmoringas nas hélices dos pedalinhos de lagos públicos, como o do Parque Vaca Brava, em Goiânia, onde foram encontrados mais de 30 tipos de micro-organismos na água, dos quais nove são cianobactérias, o que mostra o estado grave de degradação ambiental.

Utilização integral*

Nome: Moringa oleífera

Origem: Asiática

Altura: De cinco a seis metros, mas manejo adequa crescimento conforme a necessidade do produtor

Características: Resistente à seca, perene e de rápido crescimento e com propriedades medicinais, pode ser utilizada na alimentação humana e animal

Valor nutritivo: É rica em vários minerais, como fósforo, cálcio e ferro. Também tem grandes quantidades de proteínas e vitaminas. Tem antioxidantes e pigmentos carotenoides

Semente: Purificação da água

Vagem: Alimentação humana e animal

Flores: Produção de mel

Folhas: Alimentação humana e animal

*Fonte: Embrapa Pantanal

**Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de maio da Revista Safra, a partir da página 32.

Foto: Carlos Costa

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